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domingo, 31 de outubro de 2010

A primeira mulher eleita presidente do Brasil (30/10/2010)

Com 383 deputados na câmara e 54 senadores no Congresso Nacional, se elege a Hugo Chávez brasileira. Se esse quadro se consolidar...espero que não; Mas com um plano de corrupção bem arquitetado isso pode vi há ser consolidado. A nossa democracia pode sofre um grande golpe. A liberdade de expressão está ameaçada. Perdemos, uma grande oportunidade de elegermos a primeira mulher brasileira presidente, que tinha um projeto de fato. Optamos por um trator, que vem com muita gasolina e sede de vingança, acompanhada com muitos feiticeiros sem escrúpulos como: José Sarnei, Fernando Color de Melo, Renan Calheiro, Jader Barbalho, José Dirceu e toda cúpula suja do PT. Está armado a praga de gafanhotos, que vai nos atormentar por quatro anos. O PT há muito, não é aquele PT que um dia o Brasil sonhou.
É indiscutível que o presidente lula foi o melhor presidente dos ultimo cinquenta anos. Mas não tenha dúvida de que essa é a pior sucessão que o PT poderia fazer no momento e ele conseguiu. Conseguiu sair do lixo ao luxo e voltar ao lixo. Com este time que está escalado a derrota do Brasil é certa. Mas um milagre pode acontecer ou vamos amargar quatro anos de muito sufoco e de muita vergonha para o país

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Movimento cabanagem

Introdução

A Cabanagem foi uma revolta popular que aconteceu entre os anos de 1835 e 1840 na província do Grão-Pará (região norte do Brasil, atual estado do Pará). Recebeu este nome, pois grande parte dos revoltosos era formada por pessoas pobres que moravam em cabanas nas beiras dos rios da região. Estas pessoas eram chamadas de cabanos.

Contexto histórico

No início do Período Regencial, a situação da população pobre do Grão-Pará era péssima. Mestiços e índios viviam na miséria total. Sem trabalho e sem condições adequadas de vida, os cabanos sofriam em suas pobres cabanas às margens dos rios. Esta situação provocou o sentimento de abandono com relação ao governo central e, ao mesmo tempo, muita revolta.

Os comerciantes e fazendeiros da região também estavam descontentes, pois o governo regencial havia nomeado para a província um presidente que não agradava a elite local.

Causas e objetivos

Embora por causas diferentes, os cabanos (índios e mestiços, na maioria) e os integrantes da elite local (comerciantes e fazendeiros) se uniram contra o governo regencial nesta revolta. O objetivo principal era a conquista da independência da província do Grão-Pará.

Os cabanos pretendiam obter melhores condições de vida (trabalho, moradia, comida). Já os fazendeiros e comerciantes, que lideraram a revolta, pretendiam obter maior participação nas decisões administrativas e políticas da província.

Revolta

Com início em 1835, a Cabanagem gerou uma sangrenta guerra entre os cabanos e as tropas do governo central. As estimativas feitas por historiadores apontam que cerca de 30 mil pessoas morreram durante os cinco anos de combates.

No ano de 1835, os cabanos ocuparam a cidade de Belém (capital da província) e colocaram na presidência da província Félix Malcher. Fazendeiro, Malcher fez acordos com o governo regencial, traindo o movimento. Revoltados, os cabanos mataram Malcher e colocaram no lugar o lavrador Francisco Pedro Vinagre (sucedido por Eduardo Angelim).

Contanto com o apoio inclusive de tropas de mercenários europeus, o governo central brasileiro usou toda a força para reprimir a revolta que ganhava cada vez mais força.

Fim da revolta

Após cinco anos de sangrentos combates, o governo regencial conseguiu reprimir a revolta. Em 1840, muitos cabanos tinham sido presos ou mortos em combates. A revolta terminou sem que os cabanos conseguissem atingir seus objetivos

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

QORPO SANTO

Home Qorpo Santo (Biografia, Vida) Voltar Qorpo Santo



Qorpo SantoNasceu em 1829, na cidade de Triunfo, no Rio Grande do Sul, com o nome de José Joaquim de Campos Leão. Em 1839, muda para Porto Alegre onde estudaria gramática e trabalharia no comércio. Em 1850, habilita-se para o magistério público, passando a exercer o cargo de "professor de primeiras letras", ele daria aulas até 1855.

Em 1851 cria um grupo dramático. Em 1857, muda para Alegrete, cidade em que funda um colégio de instrução primária e secundária. É eleito vereador da Câmara Municipal de Alegrete, em 1860.

Maníaco obsessivo, enfrentou um processo de interdição movido por sua própria esposa, Inácia de Campos Leão, que em 1862, pediu a interdição judicial dos bens do marido, alegando a insanidade mental do marido, que acabou perdendo seus direitos civis e seus bens. Por ordens médicas, foi forçado a parar de escrever.

Professor, fundador e diretor de um colégio, subdelegado, vereador, comerciante e escritor, José Joaquim de Campos Leão (Qorpo Santo) nasceu em 19 de abril de 1829, na Vila do Triunfo e faleceu em 1 de maio de 1883 em Porto Alegre, com 53 anos.

Precursor do Teatro do Absurdo e do Surrealismo na dramaturgia, Qorpo Santo chocou a sociedade de sua época. Sua obra teatral só foi apresentada ao público pela primeira vez em 1966 ou 1968 (não se sabe ao certo) através da montagem de três de suas peças. Foi ele antecessor de Alfred Jarry, considerado por muitos o precursor do Teatro do Absurdo.

"Se o autor parece ansiar por um mundo em que prevaleçam a ordem e a obediência aos preceitos religiosos e legais, logo se insinua a malícia e o deboche, colocando em ridículo tais objetivos e mostrando a precariedade de nossos juízos", escreve Eudinyr Fraga, um dos principais pesquisadores da obra de Qorpo Santo.

Segundo o professor Eudinyr Fraga, as peças estão mais próximas do surrealismo de André Breton, autor do Manifesto Surrealista, do que do absurdo de Eugène Ionesco. Um dos argumentos é a presença das divagações dos chamados ''fluxos de consciência'', método que aparece no surrealismo do início do século 20 como ''automatismo psíquico puro''. A enxurrada de palavras aparece em diferentes textos, entre os quais As Relações Naturais. Mas também há elementos do absurdo.


Fonte: virtualbooks.terra.com.br

Qorpo Santo
Em 1877, o gaúcho José Joaquim Campos Leão, já autodenominado Qorpo-Santo, conseguiu autorização para abrir uma tipografia. Era a oportunidade que lhe restava para imprimir obras de sua autoria. Seus planos eram audaciosos, mas sua mente, já enferma, começava a preocupar os familiares. Até sua morte, provocada pela tuberculose em 1883, imprimiu em mau papel e com uma ortografia que repugnava o leitor de então os nove volumes de Ensiqlopédia, seu testamento literário. Da coleção, perderam-se dois volumes e, dos outros sete, existe apenas um exemplar de cada.

Mais de cem anos depois, a obstinação em perpetuar a obra parece não ter fim - em 1995, a pesquisadora Denise Espírito Santo descobriu um daqueles volumes, justamente o que continha 537 poemas escritos por Qorpo-Santo.

Foram dez meses vasculhando sebos e bibliotecas particulares de Porto Alegre até encontrar a raridade. Até então, conheciam-se apenas as 17 peças teatrais de sua autoria, daí a importância da descoberta. "Foi uma grande vitória pessoal", conta Denise, que não encontrou, porém, uma editora que aceitasse imprimir a jóia literária. Foram cinco anos de negociações até que a pequena Contra Capa, do Rio, apostasse no projeto.

"Fiz questão de exigir cuidados mínimos com a obra, o que acabou afugentando muitos editores", conta a pesquisadora, que incluiu uma foto inédita de Qorpo-Santo na capa do livro, finalmente lançado e intitulado Poemas (Contra Capa, tel. 0--21-236-1999, 384 páginas, R$ 37). Ao analisar o texto, Denise notou as características mais notáveis do escritor. "São textos de uma lógica impecável, que subverte padrões", observa. "Os poemas vão se somar agora ao teatro, pois têm a mesma linha de intenção de retratar o cotidiano com um espírito cômico, satírico."

Denise acredita que a obra acrescenta à poesia brasileira um estilo novo, em que assuntos triviais e nonsense (adotados depois pelos modernistas) dominam os temas, o que contraria as convenções estéticas do romantismo do século 19. Qorpo-Santo inovou também ao propor uma reforma ortográfica da língua: em sua poesia, a letra "c", por exemplo, deixa de ter o som de "q". "O cruzamento de línguas e culturas que sempre ocorreu no Sul foi fundamental em suas inovações vocabulares e também no uso do português castiço, em que mistura o erudito com o popular."

Os dados conhecidos de sua vida vêm de uma autobiografia, já escrita com sua peculiar ortografia. José Joaquim de Campos Leão nasceu em 1829, na Vila do Triunfo, Rio Grande do Sul. Sua vida transcorre normal, habilitando-se para o magistério até chegar aos 30 anos, quando acreditou-se santo e resolveu adotar o pseudônimo.

Em 1862, surgem as primeiras manifestações da doença que levariam a família a pedir intervenção judicial de seus bens. É avaliado por dois peritos de Porto Alegre, mas os médicos divergem sobre sua sanidade mental. Começa, então, a escrever compulsivamente os textos que vão compor a Ensiqlopédia.
"A análise destes textos me fazem acreditar que ele não estava louco", comenta Denise. "Há um rigor impecável, principalmente no uso da sua linguagem própria, o que seria difícil se estivesse com problemas mentais."

Transgressão - Em 1873, sofre as primeiras perseguições por suas idéias, publicadas em alguns jornais locais. Também nessa época, Qorpo-Santo começa a sentir os primeiros sintomas de problemas respiratórios. Mesmo assim, não interrompe a escrita - o planejamento, sem ser rigoroso, apresenta divisões não muito nítidas, alternando texto em prosa e em verso. É o período em que desenvolve as peças de teatro, com suas características de transgressoras e de vanguarda (leia texto abaixo).

"Qorpo-Santo tinha necessidade de falar de seu ofício, além de revelar suas influências, desde as peças encenadas em circos até as operetas apresentadas por companhias italianas, em Porto Alegre", conta Denise. Depois de publicar todos seus textos na própria tipografia, entregou os únicos exemplares de cada um dos nove volumes a um amigo comerciante. "Os livros ficaram na biblioteca desta família até que foram vendidos para sebos e sumiram."

Começou então um período de total silêncio sobre a obra de Qorpo-Santo, até a redescoberta, promovida pelo estudioso Guilhermino César, que organizou a primeira edição das peças teatrais, em 1969. O colecionador Julio Petersen, de Porto Alegre, localizou três volumes, outro foi doado ao Instituto Histórico da capital gaúcha e outros três pertencem à família Assis Brasil.

As obras foram fonte de pesquisa de Denise. Como estavam irregularmente distribuídos por vários volumes, a pesquisadora reuniu os poemas por afinidades temáticas. Também atualizou a ortografia para facilitar o entendimento. "Li todo o material durante dois anos até chegar à ordem em que foi publicado." A pesquisadora, porém, não está satisfeita: pretende lançar, até abril, outro volume, Miscelânea Quriosa, com mais textos de Qorpo-Santo. "Ainda faltam redescobrir dois livros", justifica.

Fonte: www.secrel.com.br

Qorpo Santo
José Joaquim de Campos Leão, Qorpo Santo, parece ser a figura mais controvertida da dramaturgia nacional. Sua obra ora é apontada como produto de uma mente inferior perturbada pela doença mental, ora como produto de uma mente genial que não é compreendida.

Entre as duas opiniões fica-se com nenhuma, ou antes, com ambas. Isto significa dizer que o que se pretende é ver em Qorpo Santo uma mente genial que se mascara através da loucura.

O teatro de Qorpo Santo, cada uma de suas personagens, além de surgir como um dos veículos de sua vingança contra o meio social e os desajustes humanos, é a expressão da criação artística em seu mais alto grau de elaboração, sobretudo as peças: "As Relações Naturais"; "Hoje sou um; e Amanhã outro"; "A Impossibilidade da Santificação; ou a santificação transformada" e "Lanterna de Fogo"

Fonte: www.cefetpr.br

Qorpo Santo
Nome completo: José Joaquim de Campos Leão
Pseudônimo: Qorpo Santo
Nascimento: Triunfo, Província de São Pedro, RS, BRA, em 1829.
Falecimento: Porto Alegre, RS, BRA, em 1883.
Forma autorizada: Qorpo-Santo

Biografia
José Joaquim de Campos Leão, mais conhecido por seu pseudônimo Qorpo-Santo, foi um brilhante dramaturgo gaúcho que ficou esquecido por cem anos, quando descobriu-se um autor oiriginal, de perspectiva moderna e olhar crítico. Foi precursor do Teatro do Absurdo e esteve muito além de seu tempo.

Torna-se professor primário e passa a lecionar em escolas públicas, fixando-se na capital da província. Também chega a exercer a função de delegado de polícia. Em 1862, as autoridades escolares passam a suspeitar de sua sanidade mental, e Qorpo-Santo é obrigado a internar-se. Em 1868 é considerado inapto para continuar lecionando e também para a administração de seus bens e família.

Em jornal que ele mesmo funda, A Justiça, protesta veementemente contra a decisão da justiça, que o torna inapto. No mesmo período cria a Enciclopédia ou Seis Meses de Uma Enfermidade, composta por nove tomos, dos quais só se conhecem seis atualmente. É considerado um trabalho revolucionário e desnorteante na época. No IV volume, publica todas as suas comédias que hoje conhecemos. A Edição, impressa em tipografia própria, foi lançada em 1877. Qorpo-Santo rompeu com os padrões da época e, no provinciano final do século XIX, esteve mais próximo de nossos tempos, do que no qual viveu.

Fonte: catalogos.bn.br

Qorpo Santo

Qorpo-Santo Qorpo-Santo faz parte do cânone da dramaturgia gaúcha, mas pouco se conhece de sua obra. Autor do século 19, propôs reforma ortográfica na língua portuguesa e escreveu 17 comédias, agora reeditadas.

O melhor personagem do gaúcho José Joaquim de Campos Leão (1829-1883) é ele próprio, auto-apelidado Qorpo-Santo. Escolheu o nome aos 34 anos, quando acreditava imbuído de missão divina. A justificativa (Corpo-Santo, mais tarde transformado em Qorpo-Santo) era viver afastado do mundo das mulheres. Se o corpo se pretendia santo, o mesmo não se pode dizer dos textos — e alguns revelam a incapacidade de conciliar tais preceitos aos desejos carnais.

As 17 comédias percorrem universo de erotismo e sensualidade, com histórias às vezes escatológicas, outras que mexem com tabus da época. Foram escritas em cinco meses, entre janeiro e junho de 1866, passaram um século no anonimato e agora estão de volta às livrarias no volume Teatro Completo — Qorpo-Santo, com introdução do professor Eudinyr Fraga, morto há menos de um mês. Fraga pertencia à Escola de Comunicação e Artes (Eca), da Universidade de São Paulo, e era especialista na obra de Campos Leão. Escreveu Qorpo-Santo: Surrealismo ou Absurdo (1988), que questiona a tese de que o autor é precursor do teatro do absurdo.

Segundo o professor, as peças estão mais próximas do surrealismo de André Breton, autor do Manifesto Surrealista, do que do absurdo de Eugène Ionesco. Um dos argumentos é a presença das divagações dos chamados ‘‘fluxos de consciência’’, método que aparece no surrealismo do início do século 20 como ‘‘automatismo psíquico puro’’. A enxurrada de palavras aparece em diferentes textos, entre os quais As Relações Naturais. Mas também há elementos do absurdo. ‘‘Ele criou comédias totalmente nonsense em pleno século 19. Tem esse mérito e um valor artístico inegável’’, afirma a pesquisadora Denise Espírito Santo, organizadora do Poesia — Qorpo-Santo (1999).

Herança cômica
Qorpo-Santo é uma espécie de Arthur Bispo do Rosário do teatro. Tido por louco quando vivo, acabou internado em sanatório. Depois de morto (por tuberculose, aos 53 anos), caiu no esquecimento até ser descoberto nos anos 20 por intelectuais gaúchos. Suas peças, escritas com a rapidez que o levaram à internação (o diagnóstico dizia ‘‘exaltação cerebral’’, marcado pela mania de escrever), levaram exatos cem anos para chegarem aos palcos. As Relações Naturais, Mateus e Mateusa e Eu Sou Vida, Eu Não Sou Morte foram montadas, pela primeira vez, em 1966 na capital gaúcha.

Três anos mais tarde, foi lançada a coletânea das peças por iniciativa de Guilhermino César. Desde a década de 80 sua vida e obra têm inspirado livros, teses e discussões. ‘‘Atualmente, procura-se disfarçar a superficialidade dos seus enredos com algumas tintas de protesto e denúncia’’, afirma o professor Fraga no ensaio Um Corpo que se Queria Santo, introdução ao Teatro Completo. ‘‘Mas, na essência, lá está todo o arsenal cômico vindo diretamente de Martins Pena: quiproquós, esconderijos dentro dos armários, personagens caricaturais, os mesmos velhos preconceitos disfarçados com a máscara da liberalidade.’’

Os textos têm tantos personagens quanto possível diante da crença do autor na migração das almas. A Impossibilidade da Santificação ou a Santificação Transformada, por exemplo, traz 31 deles. Alguns personagens viram outros durante o enredo. ‘‘Alguns personagens são pessoas da sociedade carioca que ele queria atacar’’, conta Denise. Curioso são os nomes: Rubincundo, Revocata, Helbaquínia, Ridinguínio, Ostralâmio, Lamúria, Rocalipsa, Esterquilínea, Eleutério, Régulo, Catinga, Esquisito, Córneo, Ferrabrás, Simplício e por aí segue. A edição mantém os nomes originais, mas atualiza a grafia das palavras para o português usual, em vez de manter a proposta do autor. Muda inclusive a escrita dos títulos: Relasões Naturaes, por exemplo, vira Relações Naturais.

Campos Leão pretendia reformar a língua portuguesa suprimindo letras inúteis como ‘‘u’’ depois do ‘‘q’’ (daí o Qorpo-Santo) e lançou a sua Ensiqlopédia com tipologia própria. Idéia que fazia certo sentido, tanto que algumas de suas propostas foram mais tarde incorporadas ao idioma, como a eliminação do ‘‘ph’’ de pharmacia e o ‘‘h’’ quando não soa, como em deshonesto e deshumano. Para sexo, no entanto, propunha a grafia seqso. Achava que assim atenderia melhor à alfabetização, baseado em sua experiência como professor. ‘‘Quando ele percebeu que não havia chance de suas peças serem lidas, virou tipógrafo e editou a Ensiqlopédia em casa’’, explica Denise.

A Ensiqlopédia ou Seis Meses de uma Enfermidade possui nove volumes. Cada um deles é dedicado a um gênero — as comédias estão no quarto e as poesias, no primeiro. Há três na biblioteca da família Assis Brasil, três com o colecionador Julio Petersen, ambos de Porto Alegre, e os outros três estão desaparecidos. Há somente um exemplar de cada. Reeditada, a obra teatral funciona como pretexto para enveredar pelo universo de uma das figuras mais intrigantes da dramaturgia brasileira. O melhor de tudo parece mesmo o autor, inventor de si mesmo e da proposta que, como lembra Fraga, a Emília de Monteiro Lobato apreciaria conhecer.

Fonte: www2.correioweb.com.br

Qorpo Santo

Qorpo Santo Qorpo-Santo (1829-1883) nasceu em Triunfo, Rio Grande do Sul, e percorreu várias localidades do interior antes de se estabelecer em Porto Alegre. Foi comerciante, professor, vereador, delegado de polícia. Adotou o nome Qorpo-Santo por razões místicas que não explica muito bem – em seus escritos, compara-se a Jesus Cristo e afirma encontrar-se, pelo fenômeno da "transmigração das almas", com o espírito de Napoleão III. A grafia de "Qorpo" obedece à ortografia criada pelo autor, que assim desejava simplificar a escrita em português.

A extensão e a natureza de seus problemas mentais não são claras. Os médicos que o examinaram no Rio de Janeiro, em 1868, declararam que estava apto para administrar negócios e família. Porém, de volta a Porto Alegre, no mesmo ano, foi interditado pela Justiça. Conseguiu montar uma gráfica, em 1877, para imprimir uma estranha série de livros intitulada Ensiqlopédia, ou Seis Mezes de huma Enfermidade.

As dezessete comédias (uma delas incompleta) reunidas em Teatro Completo são todas datadas de 1866 e levariam exatamente um século para ser encenadas. A primeira montagem foi realizada por um grupo estudantil de Porto Alegre, em 1966. Desde então, os textos de Qorpo-Santo voltaram poucas vezes ao palco. É um autor difícil, que exige ousadia da direção. Os personagens não apresentam uma identidade coerente, e suas ações são as mais desvairadas: ateiam fogo no cenário, soltam ratos no palco, bolinam e espancam uns aos outros. Muitas peças têm uma pesada carga sexual. As Relações Naturais inclui cenas em um bordel e insinuações de incesto. A Separação de Dois Esposos encerra-se com um diálogo hilariante entre Tatu e Tamanduá, o primeiro casal gay da dramaturgia brasileira. O curioso é que o dramaturgo era um conservador empedernido. Só quando escrevia, o monarquista José Joaquim de Campos Leão dava lugar ao anárquico Qorpo-Santo.

Fonte: veja.abril.com.br

Qorpo Santo

Qorpo Santo José Joaquim de Campos Leão, conhecido como Qorpo Santo (Triunfo, 19 de abril 1829 — Porto Alegre, 1 de maio de 1883) foi um dramaturgo brasileiro.

Biografia
José Joaquim Leão, natural da vila do Triunfo, interior do Rio Grande do Sul, vai para Porto Alegre em 1840, já órfão de pai, para estudar gramática e conseguir emprego na capital, habilitando-se ao exercício do magistério público, que passou a exercer a partir de 1851.

Casa-se em 1855 e, em 1857, muda-se com a família para Alegrete, cidade na qual funda um colégio, adquirindo respeitabilidade como figura pública, escrevendo para jornais locais e ocupando ainda cargos públicos de delegado de polícia e vereador.

Em 1861, de volta a Porto Alegre, segue a carreira de professor e começa a escrever sua Ensiqlopédia ou seis mezes de huma enfermidade. Parecem manifestar-se, neste momento, os primeiros sinais de seus transtornos psíquicos, rotulados então sob o diagnóstico de “monomania”, sendo afastado do ensino e interditado judicialmente a pedido da própria família. QS não aceita pacificamente este seu enquadramento psiquiátrico, recorrendo ao Rio de Janeiro, sendo examinado então por médicos daquela capital, que diferem do diagnóstico inicial e não endossam sua interdição judicial.

Todavia, o estigma estava posto, e o autor se vê cada vez mais isolado. Este isolamento social parece incitá-lo a escrever febrilmente, e o leva ademais a constituir sua própria gráfica, na qual viabiliza e edita sua produção textual.

Obras
•Certa identidade em busca de outra
•Eu sou vida eu não sou morte
•Um credor da Fazenda Nacional
•As relações naturais
•Hoje sou um; e amanhã sou outro
•Um assovio
•Um parto
•Hóspede atrevido ou O brilhante escondido
•A impossibilidade da santificação ou A santificação transformada
•Dois irmãos
•A separação de dois esposos
•La
•Lanterna de fogo
•Marinheiro escritor
•Marido extremoso
•Mateus e Mateusa
•Elias e sua loucura bíblica
Sobre a Obra
Foram necessários quase cem anos, a partir da publicação original dos textos de autor gaúcho do século XIX, José Joaquim de Campos Leão, nome ao qual o próprio autor acrescentou a alcunha de Qorpo-Santo (QS), para que sua obra conquistasse reconhecimento deivido aos esforçode de muitos intelectuais que assim o quiseram e para tal trabalharam, na década de 1960.

Alguns críticos datando desta republicação, destacando-se o editor de seu teatro completo, Guilhermino César, buscaram situá-lo como precursor de modernas tendências da arte teatral, a princípio o teatro do absurdo -na época, pretendendo atribuir-lhe a paternidade desta moderna corrente teatral- e mais tarde querendo situa-lo como antecessor movimento surrealista.

Flávio Aguiar descreve a época do relançamento das obras, muito bem recebido, com análise profunda, ao seu Os homens precários -ainda na década de 1970, bem como a tendencia dos intelectuais de glorifica-lo como um criador do tão famoso e moderno teatro do absurdo. Enquanto Eudinyr Fraga, em trabalho datado aos anos 80, defende que QS seja enquadrado como autor surrealista, por fazer uso constante em seu texto do chamado "automatismo psíquico", que caracterizaria aquela corrente estética: "Suas personagens são sempre projeção dele próprio, e com ele muitas vezes se confundem, como observamos pelo conhecimento de sua biografia. Inclusive, deixam a categoria de personagens e assumem um tom discursivo, lamentando as infelicidades e as injustiças sofridas pelo criador. Por outro lado, não tem preocupações estéticas. Suas lamúrias estão sempre a um nível existencial, ou melhor, individual. Sua obra visa satisfazer uma necessidade interior que a expressão determina”.

Hoje, QS é visto como um indivíduo criativo e fora de seu tempo, não se propõe mais sua suposta intensão como inovador da estética, mas como um artista envolvido e dedicado intimamente à sua obra, tanto que, por vezes, sua mente invade os personagens liberando seu discurso como uma colagem desconhexa da lógica da personagem.

Aguiar analisa em detalhe o teatro de QS, e seus argumentos fogem à discussão sobre ser QS o precursor não reconhecido de modernas tendências do teatro moderno. Para Aguiar, QS constrói um teatro da paralisia, em que o pano de fundo da moralidade vigente é antagonizado pelo desenrolar dos acontecimentos, em atropelo da possível lógica de seus enredos,nas peças de QS o ritmo do tempo se mostra caótico demais para que dele possa nascer, ‘espontaneamente’, qualquer conclusão lógica.

Cabe ressaltar que, à exceção destes dois autores citados acima, é perceptível a ausência de uma reflexão sobre a questão da loucura, a qual foi julgado em vida pelo juridico de Porto Alegre, sobre os limites da normalidade psíquica, no universo textual deste autor. E, no entanto, a desrazão se faz presente no cerne de sua escritura, nas nervuras de seu texto.

Fonte: pt.wikipedia.org


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sábado, 16 de outubro de 2010

Religião e política. Verdade e mentiras; andam juntas.

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Saiba como a questão do aborto foi tratada nos governos FHC e Lula
Tucana suplente de FHC e deputados petistas legislaram sobre tema.
Questão não é citada em textos do PSDB; PT aborda em resolução.
Ardilhes Moreira
Do G1, em São Paulo
imprimir Medidas ou resoluções favoráveis à prática do aborto foram debatidas durante os governos Fernando Henrique Cardoso (PSDB, 1995-2002) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT, 2003-2010).

O G1 localizou iniciativas e documentos relacionados ao tema nas duas gestões. No Congresso, a reportagem também encontrou medidas favoráveis à prática propostas por representantes dos dois partidos.

A legalização do aborto entrou na pauta do debate eleitoral ainda na pré-campanha. A evangélica Marina Silva (PV) disse ser contra a prática, mas favorável a um plebiscito sobre a questão. José Serra (PSDB) afirmou ser pessoalmente contra o aborto e que não pretendia alterar a legislação. Dilma Rousseff (PSDB) declarou também ser contra a prática e defendeu que o tema seja tratado como questão de saúde pública. Saiba como os candidatos se posicionaram sobre o tema.

No âmbito do Executivo, o tema foi discutido na gestão Fernando Henrique Cardoso (FHC) em ao menos três momentos.

O primeiro foi em 1997, ano da visita do Papa João Paulo II ao Brasil, quando a Câmara começou a discutir a regulamentação do atendimento público dos casos de aborto previstos no Código Penal desde 1940 (em casos de estupro e risco de morte da gestante).

O debate iniciado no Legislativo culminou na assinatura pelo então ministro da Saúde, José Serra, em novembro de 1998, da norma técnica “Prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres e adolescentes”, que trata dos procedimentos para realização do aborto legal no Sistema Único de Saúde (SUS).

A norma foi dirigida aos profissionais de saúde com o objetivo de detalhar como deveria ser feito o atendimento das mulheres e quais eram seus requisitos legais. À época, quando grupos políticos e líderes religiosos opinavam a respeito do tema, o presidente se manifestou por meio do porta-voz da Presidência em ao menos duas oportunidades.

Em 27 de agosto de 1997, o porta-voz Sérgio Amaral disse que FHC “não entende a celeuma que se está criando em torno dessa questão” e, em 29 de agosto, o então presidente afirmou que não se manifestaria diante das pesquisas de opinião favoráveis ao aborto legal, mas somente após a decisão do Legislativo, de acordo com reportagens do jornal "Folha de S.Paulo".

Manifestações da primeira-dama Ruth Cardoso, favorável à ampliação do aborto legal, foram criticadas por religiosos católicos. Em 2 de outubro, ela disse, em entrevista ao jornal que o aborto era um direito que estava sendo estendido às mulheres com menos recursos.

Na assinatura da norma técnica, Serra ressaltou que a medida assegurava dignidade às vítimas de violência para seguirem suas vidas. “O braço executivo das ações de saúde é formado pelos estados e municípios. É a eles que o Ministério da Saúde oferece subsídios para medidas que assegurem a essas mulheres [vítimas de violência] a harmonia necessária para prosseguirem, com dignidade, suas vidas”, escreveu o então ministro na apresentação do documento.

O segundo momento de polêmica em torno do tema aborto na gestão FHC ocorreu durante a proposta de revisão do Código Penal. A Comissão Revisora do Anteprojeto de Lei do Código Penal, nomeada em novembro de 1998, era formada por dez especialistas em direito de vários estados brasileiros.

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No Piauí, Dilma afirma que carta aberta vai tratar de abortoSerra afirma que principal em debate sobre aborto é 'dizer a verdade'Saiba o que Dilma, Serra e Marina já disseram sobre o abortoEm janeiro de 1999, a comissão encaminhou documento ao Ministério da Justiça orientando pela ampliação da permissão para o aborto nos casos em que o feto apresentasse "graves e irreversíveis anomalias" e para preservar a saúde da gestante.

O anteprojeto de lei do Código Penal seria encaminhado ao então ministro da Justiça, Renan Calheiros, e depois ao presidente Fernando Henrique Cardoso, que o entregaria ao Congresso, para votação.

Entretanto, em agosto de 1999, a revisão estava paralisada, e o ministro da Justiça, José Carlos Dias, que substituiu Renan Calheiros, manifestou desejo de reconvocar especialistas para rediscutir o tema. Na época, ele disse ser favorável a analisar a questão do aborto, mas a revisão não foi retomada na gestão FHC.

O terceiro momento em que o debate sobre o tema esteve presente na gestão do sociólogo tucano foi em seu último ano de gestão. À época, o documento final do Programa Nacional de Direitos Humanos II (PNDH2), apresentado em 2002, defendeu o “alargamento dos permissivos para a prática do aborto legal”.

O programa não tem força de lei e se assemelha a uma carta de intenções, resultado do diálogo entre poderes públicos e sociedade civil. De acordo com o governo, essas diretrizes devem servir como meta para ações governamentais.

Um trecho dizia textualmente: “Apoiar a alteração dos dispositivos do Código Penal referentes ao estupro, atentado violento ao pudor, posse sexual mediante fraude, atentado ao pudor mediante fraude e o alargamento dos permissivos para a prática do aborto legal, em conformidade com os compromissos assumidos pelo Estado brasileiro no marco da Plataforma de Ação de Pequim”.

A plataforma foi o resultado da Conferência Mundial da Mulher, realizada na China em 1995. Em uma de suas decisões recomenda que os Estados considerem “a revisão das leis que contêm medidas punitivas contra as mulheres que realizam abortos ilegais".

Governo Lula
Em 2004, no primeiro mandato do governo Lula, o então ministro da Saúde, Humberto Costa, ampliou a norma técnica assinada por Serra sobre a realização do aborto legal na rede pública de saúde.

Desde então, o boletim de ocorrência deixou de ser obrigatório para a realização de abortos em casos de estupros. Em dezembro do mesmo ano, Lula assinou o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, que previa “revisar a legislação punitiva que trata da interrupção voluntária da gravidez”.

O tema aborto apareceu novamente em ações de órgãos do governo Lula no texto do Segundo Relatório Brasileiro sobre o Tratado de Direitos Civis e Políticos, enviado pelo governo ao Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2005.

No item 42, o texto afirma: "Outro tema que merece atenção é aquele suscitado pelos direitos reprodutivos. O atual governo assumiu o compromisso de rever a legislação repressiva do aborto para que o princípio da livre escolha no exercício da sexualidade possa ser plenamente respeitado".

O relatório informa à ONU que o Código Penal "pune gravemente o aborto" e diz que o governo espera que o Congresso Nacional aprecie "projetos em tramitação que pretendem corrigir a abordagem repressiva".

Entretanto, o ponto de maior debate entre os documentos da gestão Lula esteve no Programa Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH3), lançado pelo presidente em dezembro de 2009. O texto recebeu críticas de diversas áreas e sofreria modificações em diversos temas, incluindo a questão do aborto.

Em maio de 2010, por meio de decreto, o presidente fez modificações em trechos considerados polêmicos. O artigo que tratava da defesa do aborto originalmente previa “apoiar o projeto de lei que descriminaliza o aborto”. A nova redação diz apenas que o plano visa “considerar o aborto como tema de saúde pública, com a garantia do acesso aos serviços de saúde”.

Câmara e Senado
Na Câmara dos Deputados, o tema é debatido desde ao menos o começo da década de 1990, e o projeto de lei mais criticado pelos religiosos em artigos é o de número 1135/91, de autoria dos então deputados petistas Eduardo Jorge e Sandra Starling, apresentado em 1991 e que reuniane propostas dos deputados José Genoino, Luiz Moreira, Marta Suplicy e Wigberto Tartuce.

No Senado, a descriminalização é debatida ao menos desde 1993, quando a suplente do senador Fernando Henrique Cardoso, Eva Blay (PSDB-SP), então no exercício do mandato, apresentou projeto de lei.

Em essência, os projetos de lei convergiam para ampliar os casos de aborto para além dos casos previstos no Código Penal. Nenhum dos projetos foi aprovado.

Em dezembro de 2004, o senador Gerson Camata (PMDB-ES) havia apresentado no Senado um projeto de plebiscito para debater sete temas, incluindo a legalização do aborto. O projeto ainda tramita na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa.

Um ano antes da polêmica da CPI do Aborto e da suspensão dos deputados do PT, em 2007, ano da visita de Bento XVI ao Brasil, o tema aborto havia conquistado novo destaque. Ao menos desde julho mobilizava a atuação da “Frente Parlamentar Contra a Legalização do Aborto - Pelo Direito à Vida”, que reunia à época quase 200 parlamentares. O grupo criticava projetos que previam a ampliação da prática e também a autorização do aborto em caso de estupro.

Naquele ano estava em análise na Comissão de Seguridade e Família da Câmara o projeto de lei do deputado José Genoino (PT-SP) que previa a descriminalização da prática do aborto para as mulheres com até 12 semanas de gestação e permitia a prática nos casos de má-formação do bebê. Em outubro daquele ano, levantamento do G1 localizou nove projetos sobre o tema.

Em maio de 2008, a Comissão de Seguridade Social da Câmara dos Deputados rejeitou dois projetos que previam a descriminalização da prática de aborto. As propostas previam a interrupção da gravidez até 90 dias de gestação, e retiravam do Código Penal o artigo que estabelece uma pena de detenção de um a três anos para as gestantes que praticarem aborto.

O voto do relator, deputado Jorge Tadeu Mudalen (DEM-SP), pela rejeição dos projetos, foi acompanhado por 33 deputados da comissão.

Em 2008, a Campanha da Fraternidade da CNBB teve como tema "Fraternidade e Defesa da Vida".

Partidos
A questão do aborto não foi localizada pela reportagem em textos internos do PSDB. O tema é, por sua vez, uma bandeira histórica de grupos petistas.

No 3º Congresso Nacional do PT, em 2007, a descriminalização do aborto foi citada em um artigo das resoluções aprovadas pelos militantes.

O artigo dizia textualmente: “Defesa da autodeterminação das mulheres, da descriminalização do aborto e regulamentação do atendimento a todos os casos no serviço público evitando assim a gravidez não desejada e a morte de centenas de mulheres, na sua maioria pobres e negras, em decorrência do aborto clandestino e da falta de responsabilidade do Estado no atendimento adequado às mulheres que assim optarem”.

Ao se posicionar contra a CPI do Aborto em 2009, o site do PT publicou uma resolução aprovada pelo Diretório Nacional do partido, em 9 de fevereiro daquele ano, na qual defende a descriminalização do aborto, baseada na resolução do 3º Congresso. A comissão parlamentar pretendia investigar a venda de remédios abortivos e a realização de abortos clandestinos no país.

No documento assinado pela cúpula petista em 2009, o partido se posiciona contra a instalação na Câmara da CPI do Aborto. A comissão seria destinada a investigar abortos clandestinos no Brasil e a venda de remédios abortivos.

O pedido, protocolado em abril de 2008, foi indeferido em março de 2009. No documento contrário à CPI, o diretório defende a “autonomia das mulheres” sobre o corpo e a vida e “reafirma” o compromisso do partido com a “luta pela descriminalização do aborto”.

“O Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores é contrário à CPI do Aborto e reafirma o compromisso de luta pela descriminalização do aborto e em defesa da igualdade e autonomia das mulheres sobre seu corpo e sua vida”, diz o documento.

Em 2010, o PT realizou seu 4º Congresso Nacional. Nos três documentos finais do encontro disponíveis na internet, o tema aborto não foi citado.

Partido x programa de governo
Em entrevista ao G1 na sexta-feira (8), o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, ressaltou que deve ser considerada a diferença existente entre uma resolução do partido e uma ação ou programa de governo.

Ele afirmou que as resoluções do partido são, inclusive, diferentes das diretrizes programáticas apresentadas no ato de registro da candidatura de Dilma.

“Houve uma resolução aprovada no congresso. Agora, na diretriz de governo de Dilma isso não foi aprovado. Foi aprovada a garantia de atendimento para as mulheres de acordo com a legislação vigente, vítimas de estupro ou com risco para a mãe”, disse Dutra.

As diretrizes do programa de Dilma apresentado ao TSE incluem, no item 57, o seguinte trecho: “Promover a saúde da mulher, os direitos sexuais e direitos reprodutivos: O Estado brasileiro reafirmará o direito das mulheres ao aborto nos casos já estabelecidos pela legislação vigente, dentro de um conceito de saúde pública”.

Para exemplificar que não há relação direta entre aprovação da resolução e aplicação obrigatória em atividades políticas, Dutra ressaltou que o partido estabelece que o filiado ao PT pode evocar questões éticas e religiosas para não acatar uma resolução partidária.

“Uma coisa é a resolução partidária, que inclusive não é impositiva, e outra coisa são aqueles itens de programa de governo que ninguém aprovou”, disse. Dutra lembrou que outras resoluções do partido, até mesmo consideradas polêmicas, nunca se transformaram em atos do Executivo. Entre elas, ele citou a reforma política e o plebiscito para discutir o leilão da Vale do Rio Doce.

Sobre as manifestações do PT à época da CPI do Aborto, o presidente do partido afirmou que não tinha na memória qual investigação estava sendo debatida pelos parlamentares e que o assunto não foi discutido pelo diretório do partido.

“Esse caso da CPI, não me lembro exatamente o que é que queria investigar, mas essa questão foi debatida no âmbito da bancada, esse assunto não foi levado para diretório”, disse. Dutra concedeu entrevista ao G1, por telefone, após participar de evento com Dilma em São Paulo na última sexta-feira (8).

Igreja Católica
As manifestações de representantes do alto clero católico, por meio de notas ou vídeos que acabaram sendo publicados no YouTube, destacam as ações favoráveis ao aborto ligadas ao PT. O principal deles é a nota divulgada pelo Conselho Episcopal Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em 26 de agosto, no qual os bispos citam posicionamentos do governo Lula e do PT a favor do aborto e pedem voto em partidos contrários à prática.

Em 17 de setembro e 8 de outubro, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou duas notas esclarecendo o posicionamento da entidade. Na primeira, reafirma a lista de entidades que podem representar a entidade e não inclui a Regional Sul. Na segunda nota, a CNBB ressalta que a entidade não “indica nenhum candidato”.

Além da nota da Regional 1 ou do artigo do bispo de Guarulhos que orientava padres a pregar voto contra Dilma, é exemplo do posicionamento de parte do clero católico o vídeo publicado no YouTube com discurso do arcebispo metropolitano da Paraíba, Dom Aldo Cillo Pagotto. Ele diz que a “cultura de morte” chegou ao Brasil nos anos 80 e 90 com o financiamento de fundações, mas não cita nomes de eventuais financiadores.

“Em 2003, encontrou respaldo no Partido dos Trabalhadores, que neste ano havia alcançado o poder, seu principal aliado”, disse em vídeo. Ele ressalta que, em 2005, o governo Lula assumiu diante do Comitê de Direitos Humanos o compromisso de defender a ampliação dos casos de aborto. O bispo não cita medidas adotadas no governo Fernando Henrique ou o projeto de lei da senadora tucana Eva Blay.

O bispo lembra que, em 8 de agosto de 2005, Lula enviou carta aos bispos reunidos em Itaici. “Os fatos desmentiram as palavras do presidente, quando o governo encaminhou à Câmara dos Deputados um projeto de lei que pretendia legalizar o aborto durante todos os nove meses de gravidez. (...) São vários projetos”, disse no vídeo.

O presidente do PT, José Eduardo Dutra, nega que diretrizes do partido tenham sido adotadas no governo Lula. A reportagem do G1 não localizou projeto do Executivo sobre o tema. De acordo com a assessoria de imprensa da Secretaria de Políticas para as Mulheres, órgão com status de ministério ligado à Presidência da República, não há informações sobre projetos de lei relacionados ao tema encaminhados pelo Executivo ao Congresso.

Ainda no vídeo, o arcebispo da Paraíba relaciona a saída do PT dos deputados Luiz Bassuma e Henrique Afonso ao fato de eles supostamente terem protocolado pedidos para instalar a CPI do Aborto, “para investigar quem está financiando a questão do aborto no Brasil”.

Diferentemente do que foi afirmado pelo bispo, o pedido de CPI foi protocolado em abril de 2008 pelos deputados Luiz Bassuma (PT-BA), Miguel Martini (PHS-MG) e Pastor Manoel Ferreira (PTB-RJ). Os dirigentes do PT explicam que Bassuma e Afonso sofreram suspensões por terem agredido verbalmente mulheres que defendiam posição favorável ao aborto.

À época, a justificativa para a CPI era a necessidade de “investigar abortos clandestinos no Brasil” e a venda de remédios abortivos, conforme noticiou o G1 no período.

Naquela época, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, havia afirmado que havia venda de substâncias abortivas em camelôs e pela internet. Temporão participou naquele ano de debates públicos defendendo a legalização do aborto, lançando, inclusive, a ideia de um plebiscito para decidir sobre o tema.


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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Novela de rádio

Programa de auditório

(A peça começa com a música-tema do Programa “A voz do Brasil”, entram os jornalistas)


Locutor 1- Em Brasília 19 horas. Está começando a voz do Brasil
(Vinheta da música)

Locutor 1- O palácio do planalto está diante de um impasse constrangedor.
Locutor 2- É que a comissão parlamentar de inquérito que investiga as CPIs dos últimas 15 anos chegou a uma conclusão surpreendente. Locutor 1- Após anos de investigações, eles descobriram que não descobriram nada.
Locutor 2 - Apenas apimentaram o molho da pizza gigante que se forma no Distrito Federal.
Locutor 1- Os senadores e deputados se reuniram para comemorar o resultado dessas fantásticas investigações. E para sacramentar seus esforços...
Locutor 2- Decidiram aumentar seus salários em 100% (barulho de caixa registradora).
Coro - É fantástico!
Locutor 1- Sensacional!
Locutor 2- Mas primordial
Locutor 1- E agora vamos direto ao Rio de Janeiro com as informações da reporte Helena Grande.

Helena Grande - No Rio de Janeiro os termômetros marcam 40º
Coro – Rio 40 graus cidade maravilha purgatório da beleza e do caos (bis)
Helena Grande - E continua aumentando.
Coro de jornalistas - (Com as principais manchetes de jornais do dia as mais bizarras).
Helena Grande - Do Rio de Janeiro, Helena Grande.
Locutor 1- E se desfaz neste momento, em cadeia nacional de rádio, “A VOZ DO BRASIL”.

(Vinheta da música)

Locutor 2- Fique agora com as noticias da câmara dos deputados e do senado
Coro - A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando. (faz um gesto com a mão).
Coro de jornalistas - (Com as mais bizarras reportagens).
Locutor 1- E se desfaz neste momento, mais um noticiário da câmara, e do senado. (Entra uma música bruscamente)


(Música da sogra: samba)
Refrão
Olha que situação é verdade
Minha sogra é um cão cheio de maldade

A velha é um nó no pescoço
Um cachorro com osso
Um bucho inchado

Pior do que dor de barriga
Crise de lobriga
Furunco inflamado

Refrão

A velha e pior do que enxaquecas
Unha encravada e xeque furado
Pior do que inflação, salário atrasado e cobrador do lado

Refrão

A velha é uma dor de barriga
Uma rede de intrigas
Um falso do lado
Preciso estar com os pés no chão ou aturo esse cão ou eu deixo de lado

Refrão

(Entra um locutor acima do normal)

Locutor - Boa noite, meu Rio de Janeiro. Está começando mais um programa de auditório “A VOZ DO RIO”, com a apresentação deste que vos fala. E vocês não podem perder ainda hoje... a minha a sua a nossa novela de rádio. Por que aqui a estrela é você! E vamos parar de balela e animar a galera por que está chegando até você o (?)

Entra uma música

“Rio de Janeiro/ cidade que nos conduz/ de dia falta água/ de noite falta luz”

Locutor - Este é o meu Rio de Janeiro; Abandonado por inteiro mas no padrão de beleza sempre será o pioneiro. Este não é um programa só de músicas mas de muito entretenimento e muito humor que visa levar alegria para todos os lares do meu Brasil.

Entra a música de Cazuza “Brasil”

Locutor – Obrigado! Obrigado, mas muito obrigado, meu Deus. Por mais este dia no Rio de Janeiro.

(Entra a música “obrigado”)

E agora meu amigo ouvinte que está chegando do trabalho. É hora de mais um capítulo de nossa novela de rádio.

(Entra um locutor romântico)






(Na pacata cidade de Buraco Fundo o que há de mais autêntico é a novela de rádio).

Locutor - Boa noite senhora dona de casa... meu amigo que está chegando do trabalho... povo de buraco fundo, meu cordial boaaa! Noite.

(entra em casa uma senhora aflita e liga o rádio apressada)

Senhora- Jesus, minha nossa senhora, eu ia perdendo a hora da novela mas, graças a Deus, eu cheguei a tempo. ( Respíra fundo e começa a ouvir)

Locutor - Está começando mais um capitulo da minha, da sua, da nossa novela predileta... “calcinha furada”. E no capitulo de hoje a grande noite de Ângelo e Ângela. ( romântico )

Ângela - Ai meu amor, como você esta cheiroso! Você vai acabar me deixando louca! Ai, gostoso, chega mais, chega mais.

Ângelo - Querida, nós vamos ter uma noite fantástica, vamos incendiar esta cama rolando a noite toda! Ai, meu amor! (fortes suspiros e sussurros ).

Senhora - (Começa a ficar excitada com o dialogo do casal. E, pega o rádio e cola no ouvido.)

Ângela - Ai! Meu amor me abraça mais forte, me beija, me lambe, me bate. Bate mais... bate mais forte! Eu gosto assim... vai, vai gostoso, ai ,ai, ai bota , bota tesão.

(Nesse momento a velha já está começando a subir pela paredes, rolar no chão, que loucura).

Ângelo - Querida, adoro quando você bota essa calcinha furada ai! Ela me deixa louco ai, ai a...aaaaaar!(muitos suspiros ).

Ângela - Querido adoro quando você chega assim energizado. Vai, me devora... é assim que eu gosto mesmo. Só você sabe fazer gostoso, ai estou voando gostoso... faz mais vai, vai ,vai, ai....iiir!

( Nesse momento a senhora já tem rasgado parte da roupa rolando no chão e beijando o rádio)

Ângela - Ai, querido, como é grande como é grande!...o meu amor por você ai!

(Nesse momento a velha começa a roçar em tudo que objeto praticamente louca ).

Locutor - E amanhã voltaremos com mais um capitulo de sua novela predileta... (voz romântica) “calcinha furada”

Senhora - (depois de instantes, se dá conta de que acabou) O que? Acabou? Agora que estava ficando bom. Eu já tava pegando fogo, Jesus! Tenho que apagar esse fogo (pega um objeto e sai ) Vou pro chuveiro me libertar desse fogo.

Entra um comercial ( ? )

Locutor - (voltado) E voltamos com vocês, para celebrarmos mais um momento de alegria. Vamos celebrar a vida e o seu dia a dia, por que por mais difícil que seja a vida, vale a pena ser vivida. Viva para atingir o seu potencial! o que é o que é meu irmão? É a vida! É bonita!

(Entra a música de Gonzaguinha “o que é o que é?”)

Locutor- Que maravilha! Que saudade” Que o orgulho de ser brasileiro e morar no meu Rio de Janeiro, porque o Rio continua sendo o Rio de Janeiro fevereiro e março alô alô seu Chacrinha aquele abraço.

(Entra a música “o Rio de Janeiro continua lindo o Rio de Janeiro continua sendo o Rio de Janeiro fevereiro e março...etc...”)

Locutor- E voltamos com mais um capitulo de nossa novela predileta
Coro - “Calcinha furada”

(Entra a mesma velha do capitulo anterior dentro de uma Igreja e vai ao confessionário).

Velha - Padre, Padre Ambrosio! Preciso me confessar. ( chorando e comendo uma banana).
Padre- Você de novo? (O padre está costurando uma roupa ou manuseando alguma coisa)
Velha - Sim, padre, eu de novo. Eu não sei o que é que eu tenho, que nem um homem olha para mim.
Padre- Não será o que você não tem?
Velha - Olhe aqui padre:. Eu tenho tudo de bom pra dá. Me diga o que é que eu faço com este fogo que me queima.
Padre - Vá aos pés de São Pedro e reze trezentos Pai Nosso e trezentas Ave Maria. E só volte daqui a uns seis meses e me diga o que mudou.
Velha- Mas padre... Não é Santo Antonio?
Padre- Por que Santo Antonio sempre fica com a parte mais difícil? (Com outro tom de voz) Procure São Pedro, ele é mais desocupado.
Velha- Mas, padre... Trezentos Pai Nosso e trezentas Ave Maria, todo dia? O senhor acha isso pouco?
Padre- Tudo bem minha filha! Reze mais quatrocentos Credos pela sua desobediência.
Velha - Credo!
Padre - Creio em Deus padre, e vá. (ela sai chorando) Todo dia a mesma coisa é demais! Nem Deus aguenta isso, quanto mais eu que sou padre.

(Entra uma ninfeta toda exuberante que entra no confessionário e começa a falar toda dengosa.

Ninfeta- Padre!
Padre- Pode falar que eu estou ouvindo (continua fazendo algo).
Ninfeta - O senhor está zangado?
Padre - Eu? Que isso! Todo mundo vem aqui pedir para que eu resolva seus problemas, e eu? Como fico? Quem vai resolver os meus?
Ninfeta - Então o senhor não vai poder resolver meu problema.
Padre - E qual é o seu problema, minha filha?
Ninfeta - Acho que só Deus.
Padre - Mais um problema para o padre. Todo mundo vem aqui pedir ajuda a Deus, e o padre é que paga o pato, desembuche.
Ninfeta - É que eu estou com problema de amor mau resolvido.
Padre - É só o que me faltava! Toda gorda desta cidade vir aqui falar de casos de amor mau resolvidos.
Ninfeta - É que minha mãe...
Padre - E quem é sua mãe?
Ninfeta - Maria Sabiá
Padre - Hein!? (Larga tudo e olha pelo buraco do confessionário) Conte-me tudo, não me esconda nada. Eu sou todo ouvido.
Ninfeta - Eu posso voltar depois o senhor estava tão bravo.
Padre - Imagine! Eu? Nada ! Eu sou um filho de Deus que está sempre pronto para cuidar das ovelhas do seu rebanho.
Ninfeta - É que eu... e o cacau... estamos namorando. E ele ontem me chamou de gostosa.
Padre - Sim é verdade...! Quero dizer... É verdade?
Ninfeta - E depois, ele me beijou na boca.
Padre- Na boooca!
Ninfeta - E depois!
Padre - E depois?
Ninfeta - Depois ele foi descendo, descendo.
Padre - Foi descendo? Malvado ( abraça uma boneca inflável).
Ninfeta - Essa, foi a parte que eu mais gostei. Por que ele, desceu mais, e foi tirando minha roupa com os dentes, uma por uma, e me beijando dos pés a cabeça, eu fiquei louca.
Padre - (Com um tom de voz diferente)Eu também estou ficando!
Ninfeta - E começou subir aquele fogo.
Padre - Esse fogo? (se abanando com as mão).
Ninfeta - Daí, eu não vi mais nada! Por que o fogo me queimava... e queimava fervorosamente. O senhor não imagina a loucura.
Padre - Ah, eu imagino...imagino!
Ninfeta - Só que minha mãe bateu na porta do quarto e cortou meu barato. Ele saiu pela janela!
Padre - E aí?
Ninfeta - Eu fiquei no fogo e nada mais.
Padre - Você quer apagar seu fogo?
Ninfeta - Sim quero! Eu já não suporto esse fogo! Minha mãe disse que eu tenho que rezar com o padre por que o senhor é muito experiente e pode resolver esse problema com poucas palavras.
Padre - Isso é verdade minha filha. Venha cá que eu vou lhe mostrar o mapa do caminho.
Ninfeta - Eu só vou tirar minhas coisas e já entro.

(O padre entende, acha que ela vai tirar a roupa e tira toda a sua roupa também. Fica só de cuecão .A velha, tendo voltado da penitência, vem falar com o padre. Então a garota sai).

Velha - Pronto padre! Eu estou pronta.
Padre - Pode entrar, meu chuchuzinho! ( agarra a velha e quando vai beija-la toma o maior susto) Aaaai!! Mas que marmota é esta? Você de novo? Será o Benedito?
Velha - Padre Ambrosio, o que é isso? (estupefata)
Padre - Isso o quê?
Velha - ( aponta maravilhada para a cueca do padre).
Padre - ( se enrola com as palavras e com a roupa) Bem... ah...um...um! é um apito de chamar anjos (juntando as roupas).
Velha - Padre eu posso assoprar no seu apito de chamar anjos?
Padre - O quê? ( tampando as coisas) mais o quê que a senhora está pensando? Você vai pro inferno. (bravo) Suma daqui

(Ela sai correndo)

Padre - (tirando as coisas da frente) Se bem que num caso desses bem que... (sai atrás dela).

Locutor - Mas o que é isso minha gente? Que loucura!
(Entra a música “está chegando a hora”) Estamos chegando a mais um final de mais um programa de auditório. Boa noite... boa noite, Brasil! Boa noite, Rio de Janeiro.

Fim

domingo, 3 de outubro de 2010

O Casamento Suspeitoso "Ariano Suassuna"

O Casamento Suspeitoso
De Ariano Suassuna
PRIMEIRO ATO
Uma sala de casarão sertanejo. Portas para quartos e corredor. Uma grande mala ou um guarda-roupa. Estão em cena Canção, Gaspar – que é gago – e o juiz Nunes.
Nunes - Mas afinal de contas, por que é que eu fui chamado?
Cancão – É que a moça quer casar com Geraldo assim que chegar. A mãe disse que não transige nessas questões de ordem moral e que se a filha ficar aqui com o noivo sem casar podem falar dela.
Nunes – Esse casamento é impossível, não se publicaram os proclamas.
Cancão – E se Geraldo abrir o inventário do pai dele? O senhor se lembre que esse inventário é o mais rico, o mais cheio de custas que já apareceu por aqui. Se ele abrir o inventário o senhor dá um jeito para o casamento não ser hoje?
Nunes – Se esse inventário se abrir, Cancão, eu faço o que Geraldo quiser. Mas você não disse que a moça quer casar hoje?
Gaspar – Disse.
Cancão – Mas Geraldo não quer não, quem quer é a moça. É claro que ele não pode dizer isso abertamente, seria uma indelicadeza com a noiva. Mas se o senhor lhe desse o pretexto para não casar hoje, ele ficaria muito grato e abriria o inventário.
Nunes – E qual o desejo de Dona Guida?
Cancão – É o mesmo de Geraldo, adiar o casamento. É por isso que Geraldo não quer se casar hoje está com medo de dar um desgosto à mãe.
Nunes – Mas será que não vou me complicar? Depois de casada, essa moça vai manobrar Geraldo e quem sai perdendo sou eu, que atrapalhei o casamento dela no começo.
Cancão – Faz-se tudo disfarçado. Eu convenço Geraldo e Dona Guida a requererem o inventário e o senhor sai da cidade para avaliar a propriedade que o pai dele deixou. Isso tem duas vantagens: aumenta as custas e o casamento tem de ser adiado porque o juiz está fora.
Nunes – É uma boa idéia, mas eu estou desconfiado. Qual é seu interesse nisso tudo?
Cancão – Doutor Nunes, eu sou amigo de Geraldo!
Nunes – Não diga! Você pensa que eu sou menino, é, Cancão? Ainda mais esse santo aqui! Diga logo: qual é seu interesse?
Cancão – Bem, se o senhor garante segredo... Meu interesse é o inventário. O senhor sabe que Geraldo e Dona Guida têm toda confiança em mim. Pois bem, eu arranjo que eles requeiram o inventário. Mas em troca o senhor vai nomear a mim e a Gaspar como avaliadores nele. Assim, a gente entra também no dinheiro das custas.
Nunes – Ra, ra! Era isso, hein? Agora sim, estou vendo que suas intenções são boas. Pois pode contar, Cancão: na falta dos proclamas, eu levanto os impedimentos legais e o casamento se adia. Mas Dona Guida sabe que eu só saio da cidade se ela requerer o inventário?
Cancão – Sabe.
Nunes – Então está combinado. A procuração para meu amigo Sousa já está preparada. Eu como juiz, ele como causídico e vocês dois como avaliadores...
Gaspar – Está organizada e praga de gafanhotos.
Nunes – Que tolice, que vulgaridade! Digamos: “A máquina da justiça está montada!”
Entram Geraldo e Dona Guida.Esta vem numa cadeira de rodas, empurrada pelo filho, com o pé repousando numa forquilha, pois sofre de gota. É surda e usa corneta, para ouvir melhor. Com o pé envolvido de gaze, em bola, anda ainda com uma maleta cheia de dinheiro.
Dona Guida – Cancão, meu filho, como vai você? Que é que está fazendo aí com esse ladrão?
Nunes – Dona Guida gosta de tirar umas brincadeiras com a justiça!
Dona Guida – Ele já roubou você?
Nunes – Ra, ra, ra! Essa Dona Guida é ótima, diz cada brincadeira...
Cancão – Geraldo, o casamento não pode se fazer hoje! Não se publicaram os proclamas. Mas isso tem uma relação enorme com a abertura do inventário de seu pai.
Geraldo – Do inventário?
Nunes – Ah, é, uma relação danada!
Cancão – Dona Guida quer que o casamento seja hoje?
Geraldo – Não, mas fale baixo, você sabe mamãe como é!
Cancão – Não é verdade que sua noiva é a mais interessada no casamento hoje? Por questões de ordem moral?
Geraldo – Bem, eu acho que...
Cancão – Ela não disse isso na carta?
Geraldo – Disse.
Cancão – (Baixo ao juiz) Então, está tudo claro, não?
Nunes – Claríssimo! E tudo está encaminhado. O inventário é nosso! (Barulho de automóvel.)
Gaspar – O carro de Herotides!
Geraldo – Meu Deus, acho que são elas!
Entram Lúcia, Susana e Roberto Flávio. Ele vem com camisa colorida, estampada, óculos e máquina a tiracolo. As duas devem vir vestidas de modo refinado, exagerado, esquisito, ultramoda, de maneira a contrastar o mais possível com a pobreza de Cancão e Gaspar, com a sóbria discrição de Geraldo e Dona Guida e com a pretensão do juiz.
Lúcia – Geraldo, meu Geraldo! (Abraça-o, beija-o e chora de emoção.)
Geraldo – Minha filha!
Lúcia – Desculpe, mas não pude me conter! Há quase um mês não o vejo!
Susana – Quanta sensibilidade!
Dona Guida – (Impassível, ante a comédia) Ó Geraldo!
Geraldo – Que é, mamãe?
Dona Guida – Quem é esse vigarista vestido de mulher?
Roberto – Mas Tia Guida!
Dona Guida – Como foi?
Roberto – Eu disse: “Mas Tia Guida!”
Dona Guida – Tia Guida? Geraldo, esse camarada não presta não. Como é que ele pode ser meu sobrinho se eu não tenho irmão?
Roberto – (Cada vez mais amarelo.) É um modo de falar, um modo afetuoso.
Dona Guida – Geraldo, mande esse camarada pra fora daqui, ele não vale nadinha! Como é que ele pode ter afeto por mim se nunca me viu? E essas mulheres? Mande as duas mais para o claro, quero ver a cara delas.
Geraldo – Mas mamãe, é Lúcia!
Dona Guida – Seja quem for, quero ver se elas prestam ou não!
Susana – Guida, minha prima, você não sabe o que este encontro significa para mim! Não tenho mais ninguém no mundo a não ser vocês, e a família para mim era tudo!
Dona Guida – Para mim também, Susana. Mas vocês são minhas parentas mesmo? Eu nunca tinha ouvido falar em vocês.
Susana – Estivemos afastadas tanto tempo... Como vai Tia Madalena?
Dona Guida – Tia Madalena? Você conheceu?
Susana – Conheci, Guida! E, então? Como vai ela?
Dona Guida – Morreu, Susana! (Assoa-se)
Susana – (Corando) Minha Nossa Senhora, assim é a vida! E Tia Felicidade?
Dona Guida – Morreu, Susana!
Susana – Mas é possível? Que é que eu faço no mundo sem minha família? E Tio Joaquim?
Dona Guida – Morreu, Susana!
Susana – Por favor, não posso mais!Ligada como sou à minha família, fico em tempo de morrer com essas evocações tristes! (Chora)
Dona Guida – Ó Geraldo, você não tem vergonha de maltratar essas duas santas? Que foi que você fez com elas?
Geraldo – Eu? Nada, mamãe!
Lúcia – Deixemos isso, nós mulheres sofremos tanto que nos entendemos logo ao primeiro contacto. Seu filho é o melhor dos noivos e eu já me sinto como filha sua.
Dona Guida – Deus a abençoe.
Cancão – Amém.
Lúcia – Mas Geraldo, você ainda não nos apresentou a seus amigos, tão simpáticos. Eu sou Lúcia Renata, meu primo chama-se Roberto Flávio, aqui minha mãe, Susana Cláudia.
Gaspar – Que estrago mais danado, dois nomes para cada pessoa!
Geraldo – Este aqui é Cancão.
Lúcia – Cancão? Mas deve ser muito gostoso se chamar Cancão!
Geraldo – Este aqui é Manoel Gaspar.
Gaspar – Gaspar para os amigos.
Susana – Mas é muito gostoso isso!
Gaspar – Gostoso, é?
Susana – E então?
Gaspar – (A Cancão) Se essa mulher for séria eu me dane.
Geraldo – Este aqui é o juiz Nunes.
Lúcia – O juiz? Não, não é possível! Você concordou! Geraldo, meu amor, nunca fui tão feliz.
Cancão – (A Gaspar) Saia de perto, Dona Guida vai estourar.
Dona Guida – Que confusão é esta?
Susana – Foi Geraldo que concordou com o casamento, Guida!
Dona Guida – Com o casamento? E ele não já tinha concordado?
Susana – Com o casamento hoje, Guida.
Dona Guida – Hoje? Sem correr os banhos?
Susana – Para que essas formalidades? Nós não somos da família?
Dona Guida – São, mas casamento desse jeito pra mim é pouca vergonha!
Lúcia – Ah, Geraldo, meu bem, nunca pensei!
Susana – Se Tia Madalena fosse viva...
Dona Guida – Se Tia Madalena fosse viva botava vocês pra fora de casa! E tem uma coisa, vou para meu quarto, porque uma safadeza dessa eu não assisto. (Geraldo vai ajudá-la com a cadeira, mas ela o repele.) Vá pra lá!
Nunes – Dona Guida, Dona Guida!
Dona Guida sai empurrando ela própria a cadeira, pelas rodas, e o juiz segue-a. Cancão faz um sinal a Gaspar.
Gaspar – (Saindo no encalço dos dois.) Vou ver se aplaco Dona Guida.
Geraldo – (Aflito.) Não reparem, por favor! Lúcia! Dona Susana! Minha mãe tem esse gênio assim, mas é uma pessoa boníssima! Lúcia!
Lúcia – Não, Geraldo, ela tem razão, Agora, você não me quererá mais e vai pensar que eu sou uma desfrutável!
Geraldo – Mas filhinha, não diga uma coisa dessas.
Lúcia – E afinal, que importa? Para mim, de qualquer modo, é a mais terrível viuvez! Vou terminar meus dias num convento, como irmã de caridade!
Susana – Que amorosidade, que dedicação!
Cancão – Está tudo muito bem, mas o melhor é pensar logo em resolver a história. O problema é todo causado pelo juiz, que inventou essa história de proclama.
Geraldo – Por quê?
Cancão – O que ele quer é o inventário de seu pai. Está louco pelo dinheiro desse inventário e, se você fizer o requerimento, o juiz dá uma certidão de que os proclamas foram publicados e faz o casamento. Assim, Dona Guida não tem mais de que se queixar. Eu já combinei tudo com o juiz.
Lúcia – Mas é muito bom esse seu amigo, Geraldo!
Cancão – O negócio agora é convencer Dona Guida a requerer o inventário, mas Gaspar já está tratando disso. Por que você não vai ajudá-lo?
Geraldo – Eu vou. Cancão, obrigado, se essa história se resolver sem minha mãe se zangar, fico lhe devendo um favor para o resto da vida. (Sai.)
Roberto – Cancão, nós apreciamos muitíssimo o interesse que você está tomando, mas dá pra desconfiar. Que é que você está ganhando nessa história?
Cancão – É que o juiz prometeu me nomear avaliador no inventário e assim eu também entro nas custas.
Lúcia – Ah, era isso, hein? Então está certo, a gente ajuda você nisso e você nos ajuda no casamento. Antes não, mas agora vejo que suas intenções são boas.
Entram Geraldo, Dona Guida, Gaspar e Nunes.
Gaspar – Pode assinar que eu garanto, Dona Guida. A senhora não sabe que eu sou de confiança?
Dona Guida – Mas eu não assino!
Gaspar – Dona Guida, eu entendo disso, já me casei três vezes!
Susana – Interessante, você se casou três vezes, foi? Deve ser um grande amoroso, não?
Gaspar – Nada, foi coisa da mocidade! Pau seco não dá embira, nem corda velha da nó.
Susana – Mas coisa triste na vida é ficar no mundo só!
Gaspar – Ai, e a senhora é poeta, é?
Susana – Versejo.
Gaspar – Se essa mulher for séria eu me dane! Como é Dona Guida, assina ou não assina?
Dona Guida – O que é que você acha, Cancão?
Cancão – Sou pela assinatura, Dona Guida.
Dona Guida – Então...
Estende a mão a Geraldo, que faz o mesmo a Nunes. Este entrega a procuração, que Dona Guida assina.
Nunes – Geraldo, queira assinar também. Obrigado. Muito bem, agora a coisa vai. (Cumprimentando) Geraldo! Dona Guida!
Dona Guida – Eu assinei, mas você é ladrão, viu?
Nunes – Ra, ra, ra! Dona Guida sempre com brincadeira! Está tudo combinado e com o inventário requerido, você pode contar com a justiça.
Cancão – Para questão dos impedimentos, não é?
Nunes – Isso mesmo. Geraldo! Dona Guida! Meu caro avaliador! (Sai.)
Susana – Oi, que é isso? O juiz vai embora?
Cancão – Vai vestir aquela batina dele, só faz casamento assim.
Lúcia – Cancão, você é um amor. Não tenha ciúme não, Geraldo, mas esse seu amigo é simplesmente extraordinário!
Gaspar – É minha primeira mulher todinha!
Lúcia – Roberto, meu filho, precisamos agradecer a Cancão.
Roberto – E Tia Guida tão boa, concordando em assinar!
Susana – Estamos muito gratas, muito contentes. (Aproveita para abraçar Gaspar.) Gaspar, você é um amor.
Dona Guida – Está tudo muito bem, mas ninguém me disse ainda o que foi que veio fazer aqui esse vigarista vestido de mulher!
Roberto – Minha senhora!
Lúcia – Tia Guida, é Roberto, meu primo. Gosto tanto dele! Veja, me diga se uma pessoa que tem esses braços tão puros é capaz de fazer mal a alguém! Veja os braços dele! Que pureza, que inocência!
Gaspar – Menino, é a finada safada todinha!
Lúcia – Não vá ficar com ciúme!
Geraldo – Eu, minha filha? Que idéia!
Dona Guida – E o casamento religioso?
Cancão – Frei Roque chega já no ônibus de campina.
Susana – Então vamos nos preparar. Você não vem?
Roberto – Não. Vou buscar o juiz, é mais seguro. (Sai.)
Cancão – Vão se vestir, o juiz chega já e vocês devem terminar tudo do modo mais rápido possível.
Lúcia – (Com intenção) Ah, sim, o mais rápido possível.
Saem Lúcia e Geraldo abraçados, seguidos de Susana. Ruído de carro se afastando.
Gaspar – (Da janela.) Cancão, o carro com o juiz.
Cancão – Pronto, Dona Guida, agora o juiz só pode voltar lá pra meia-noite e o casamento não se faz hoje de jeito nenhum.
Dona Guida – Ave Maria, se Gaspar não me avisa, eu nunca assinaria a procuração, Mas você tem certeza que a moça não presta?
Gaspar – Certeza plena, Dona Guida. Tomei todas as informações que a senhora pediu a meu cunhado, que mora no Recife. A mulher tento é ruim como não presta. Toda decepada, toda descabriolada... Tem um falaço danado.
Dona Guida – Falaço?
Gaspar – Sim, todo fala dela. Só não pude descobrir se é capiongueira. (Faz o gesto de roubar, para indicar o que é.) Mas isso não faz falta não, porque a mãe é. A filha é a finada safada e a mãe é a finada velhaca todinha. A senhora acha que isso que elas estão fazendo é coisa de mulher séria?
Dona Guida – Na verdade, quem já ouviu falar de casamento assim?
Cancão – Estão é com medo que a gente descubra tudo e querem fazer o casamento logo, para se garantir.
Gaspar – Cancão, pelo amor de Deus, o estouro começou.
Cancão – Que é?
Gaspar – O tal do Roberto Flávio vem ali todo afrontado.
Cancão – Dona Guida, saia, deixe tudo por minha conta.
Dona Guida sai. Roberto entra, vindo da rua.
Roberto – O juiz sais da cidade. Que é que quer dizer isso?
Cancão – Eu sei lá! Eu tenho nada com o juiz! Você vá perguntar à mãe dele, que é quem pode saber!
Roberto – Tentei alcançá-lo, mas não existe outro carro na cidade. Agora, tem uma coisa: se eu descobrir que tem gente nos enganando, vocês me pagam! (Interrompe-se e sai arrebatadamente.)
Gaspar – Cancão, eu vou–me embora! Estou em tempo de morrer de medo.
Cancão – Não, precisamos de alguma coisa pra a Geraldo. Fique escondido aqui. De acordo com o que eles disserem, a gente faz o plano.
Gaspar – E se eles não vierem?
Cancão – Não se incomode não, que eles vêm me procurar.
Gaspar – E se depois eles não quiserem mais sair?
Cancão – Ah, minha Nossa Senhora! Será possível que eles passem o resto da vida aqui?
Gaspar – A impressão que eu tenho é que vou enfrentar de uma vez só a finada safada e a finada velhaca.
Cancão – Esconda-se, homem de Deus! Assim está bom. Depois, corra e vá me contar tudo.
Gaspar – Se me deixarem com vida, eu vou! Adeus, Cancão, até Dia de Juízo!
Gaspar se esconde atrás de uma cortina e Cancão sai para a rua. Entram Lúcia, Roberto e Susana.
Lúcia – Fugiram! Mas é possível que tenham tido essa ousadia?
Roberto – Não estou lhe dizendo que o juiz saiu da cidade? Só pode ter sido combinado!
Susana – A culpa foi sua!
Roberto – Minha por que?
Susana – Todo mundo viu logo que esse agarramento de Lúcia com você não era de primo.
Roberto – E eu tenho culpa de sua filha não poder passar sem mim?
Lúcia – Roberto, mamãe, vamos parar com isso. Que é que adianta discutir? A culpa foi de todos nós. Minha, porque não posso passar sem meu cachorro. Dele, porque veio atrás de mim...
Susana – Pelo dinheiro, por você não!
Lúcia – Olhe o ciúme dela! E então? Quem vale o que ele vale, pode ser exigente! Ainda sabe dar aqueles latidos?
Roberto – Au, au, au!
Lúcia – Fico toda arrepiada! Dê mais, um só!
Roberto – Au, au, au!
Lúcia – Não é um amor? É muito gostoso, fico inteiramente louca! Geraldo ainda não sabe de nada e aqueles dois vão me pagar. O amarelo é ruim, mas eu tenho mais raiva é daquele gago safado! Ele vai me pagar.
A cortina começa a tremer, Roberto vai lá e levanta-a cuidadosamente. Gaspar está de costas, com a cara na parede, e não vê que foi visto. Roberto baixa de novo a cortina, tirando o cinturão.
Roberto – Ah, vai. Sabe o que eu faço se pegar os dois? Tiro assim o cinturão e passo nas costas dele. (Dá em Gaspar.)
Lúcia – Passa mesmo?
Roberto – Passo, mesmo assim. – (Idem.) E se ele reagisse, aí eu dizia: “Tome, tome, tome, tome, safado. Isso é para não estar se metendo à besta pra meu lado!”
Lúcia – É melhor aguardar, talvez até estejamos acusando os pobres sem motivo! Vamos terminar de nos vestir.
Fazem uma falsa saída. Gaspar sai do esconderijo, esfregando o espinhaço, e corre para a rua. Os três voltam.
Roberto – Então?
Lúcia – Agora não há mais dúvida. É preciso dar uma lição nesses dois.
Susana – Eles já tomaram a dianteira. Agora, ainda por cima, vão contar a Geraldo tudo o que Gaspar ouviu. E você com suas histórias de cachorro e de latido!
Lúcia – Deixe tudo por minha conta. Em primeiro lugar, vamos acabar com o lugar do crime. Ajudem-me a tirar esta cortina. Isto. Que mais, meu Deus? Ah, sim: você trouxe filme na máquina?
Roberto – Trouxe, sim.
Lúcia – Fique escondido atrás do oratório daquele quarto e fotografe o começo do que assistir. Só o começo, viu? Você vai?
Roberto – Vou.
Lúcia – Faça isso e o dinheiro será nosso. Seu, porque diante de você eu não tenho vontade.
Roberto – Está bem, mas tenha cuidado. Ou esse casamento dá certo ou estamos desgraçados. O dinheiro está a ponto de se acabar. (Sai.)
Susana – Lúcia, minha filha, é o negócio do retrato?
Lúcia – É.
Susana – E Roberto vai ver? Isso não fica bem, afinal de contas nós temos os nossos princípios!
Lúcia – Ih, mamãe, isso é hora de falar em princípios? Roberto não tem essas besteiras não!
Susana – Mas não sei se será aconselhável você se cansar. Afinal de contas são dois, Cancão e Gaspar.
Lúcia – Ah, o que você quer é se encarregar de Gaspar.
Susana – Não está vendo que eu não posso deixar você fazer esse sacrifício sozinha? Que mãe você pensa que eu sou?
Lúcia – Está bem, Gaspar fica por sua conta. Vai ser uma novidade, hein? Tão rústico! Mas saia, Geraldo vem aí.
Susana sai. Entra Geraldo e Lúcia começa a chorar, fingindo que não o vê.
Geraldo – Então está tudo pronto? Que é isso? Está chorando, meu bem? Que é isso?
Lúcia – Que é isso! Coitado, tão inocente, tão cheio de boa fé!
Geraldo – Eu? Que há?
Lúcia – É melhor você não saber.
Geraldo – Foi alguma coisa que eu fiz?
Lúcia – Que mal podia me fazer o melhor e mais amado dos noivos?
Geraldo – Então foi minha mãe?
Lúcia – Sua mãe é uma santa, que mal podia me fazer?
Geraldo – É, mas como ela ficou contra o casamento...
Lúcia – Casamento? Que casamento?
Geraldo – Mas meu bem! O nosso, é claro!
Lúcia – Meu Deus, como é que se tem coragem de trair uma inocência dessa! Não vai haver casamento nenhum, querido. Tornaram nosso casamento impossível.
Geraldo – Tornaram? Quem foi?
Lúcia – Seus dois amigos, Cancão e Gaspar.
Geraldo – Não é possível!
Lúcia – Está vendo? Eu sabia que minha palavra valia menos que a deles.
Geraldo – Sua palavra é tudo para mim, meu amor. Mas o que foi que eles fizeram?
Lúcia – Tiraram o juiz daqui de Taperoá, ele saiu de repente no mesmo carro em que nós viemos. Foi avaliar sua propriedade, Roberto soube.
Geraldo – É para aumentar as custas, ele faz isso em todo inventário.
Lúcia – Todo mundo sabe disso em Taperoá? Desse costume do juiz?
Geraldo – Sabe.
Lúcia – Quem aconselhou você a requerer o inventário?
Geraldo – Cancão.
Lúcia – Você vê agora o plano? Ele aconselhou você a requerer para tirar o juiz e impedir assim o casamento.
Geraldo – Mas com que interesse Cancão iria fazer isso?
Lúcia – Você sabe que o juiz prometeu nomeá-lo avaliador, caso ele aconselhasse você a abrir o inventário?
Geraldo – Não é possível!
Lúcia – Não é possível! Como foi que o juiz se dirigiu a Cancão na hora de sair?
Geraldo – Meu caro avaliador!
Lúcia – Está vendo?
Geraldo – Mas é possível que meus melhores amigos... Gaspar também está metido nisso?
Lúcia – Claro, também vai ser nomeado!
Geraldo – Mas Cancão e Gaspar, logo eles!
Lúcia - E você não sabe o pior de tudo, meu amor.
Geraldo – Pior ainda?
Lúcia – Não, é melhor não dizer nada, você tem um gênio tão esquentado!
Geraldo – Não, agora quero saber tudo!
Lúcia – Você promete não perder a cabeça?
Geraldo – Sei lá! Que foi?
Lúcia – Não sei se você reparou, mas desde que cheguei os dois ficaram me olhando de um jeito... Toda vez que eu cruzava as pernas ou ficava de costas...
Geraldo – Canalhas!
Lúcia – Pode ter sido engano meu, mas por segurança comecei a tratá-los à distância. Nessas coisas é bom não facilitar. Eles sentiram a história e, por vingança, resolveram me prejudicar junto a você. Resolveram... Não, não digo, é uma coisa tão baixa que eu...
Geraldo – Diga, meu bem, você está acima dessas coisas!
Lúcia – Mamãe ouviu os dois dizendo que vão me caluniar.
Geraldo – Caluniar? Como?
Lúcia – E eu sei? Mamãe não quis me dizer do que se tratava direito para não ferir a minha inocência! Era uma coisa horrível, uma história dum cachorro, duns latidos... Parece que era pra dizer a você que eu era mesmo uma cachorra!
Geraldo – Meu Deus, é possível tanta maldade?
Lúcia – Eles combinaram dizer que eu traía você com Roberto. Combinaram dizer que Gaspar tinha me espreitado por trás de uma cortina, aqui. E a sala nem com cortina está, veja!
Geraldo – Meu Deus! Mas fique descansada, amor, não chore mais! Assim que o juiz voltar, seja a hora que for, o casamento se faz e é de qualquer jeito! E eu não quero ver esses dois nunca mais!
Lúcia avista Cancão e Gaspar, que vêm chegando, abraça Geraldo e leva-o para o lugar da cortina, cobrindo a falta da vista dos dois.
Lúcia – Meu bem, são eles. Ah, você vem aí, cancão. Veja, meu filho, como eles vêm contentes! E tem razão, conseguiram o que queriam!
Cancão – Como é?
Lúcia – Geraldo já sabe tudo, pode falar sem medo. Vocês tiraram o juiz da cidade e tornaram nosso casamento impossível!
Cancão – (Inocente.) Ai e o juiz saiu, foi?
Lúcia – Pode tirar a máscara e deixar a hipocrisia de lado. Já se sabe tudo, a história das avaliações, sua mentira, tudo! Todos nós sabíamos que você é pobre, Cancão. Mas precisava fazer essa traição com Geraldo que nunca lhe fez mal?
Cancão – Traição, eu?
Lúcia – Sim, você! E por causa de dinheiro! Que coisa triste e feia!
Cancão – Mas espere, eu é que vim denunciar uma traição!
Lúcia – Fale, minta, calunie, diga o que quiser! Geraldo já sabe que você estava combinado com o juiz para enganá-lo. Você não se deteve diante de nada, viu o dinheiro na frente e ficou cego!
Geraldo – É verdade isso, Cancão? Eu mal podia acreditar!
Lúcia – É claro, confiante e bom como é! Mas isso é uma coisa que brada aos céus e a justiça de Deus pode tardar mas vem!
Geraldo – Como é? Você não diz nada?
Cancão – Que é que eu posso dizer?
Geraldo – A história da avaliação é verdade?
Cancão – É.
Geraldo – Você disse ao juiz que eu queria adiar o casamento?
Cancão – Disse.
Geraldo – E me disse que ele só faria o casamento se eu abrisse o inventário, não foi?
Cancão – Foi.
Geraldo – E por que tudo isso?
Cancão – Para evitar que esse bando de vigaristas tomasse o que é seu! Para evitar seu casamento com essa desgraça que está aí!
Lúcia – Ai, Geraldo, meu amor, eu não lhe disse?
Cancão – Veja esse choro: não há quem diga que é de propósito. Mas essa mulher é a praga pior que já pisou em Taperoá. Não pense que eu sou idiota não, Dona Lúcia! Eu saí, mas deixei Gaspar escondido aqui e ele ouviu tudo!
Gaspar – Ela é amante desse primo que veio com ela do Recife. Eu ouvi.
Lúcia – Você ouviu?
Gaspar – Ouvi. Os latidos, a história do cachorro, a cachorrada toda!
Geraldo – Que história absurda é essa?
Gaspar – Eu não entendi direito não, Geraldo, só ouvia era os latidos e ela dizendo: “Fico toda arrepiada!”
Cancão – Você olhe que Gaspar já foi casado três vezes. Pois mesmo assim nunca tinha ouvido falar das coisas que ouviu, escondido aqui.
Lúcia – Mas escondido onde?
Cancão – Aqui, atrás da cortina, (Boquiaberto.) Onde está a cortina?
Lúcia – Eu é que pergunto: como é que Gaspar ouviu isso por trás de uma cortina que não existe?
Cancão – Mas Geraldo, tinha cortina!
Geraldo – Não quero ouvir mais nada, não sou idiota não! Nunca ouvi tanta mentira em minha vida! Vou sair, para que vocês saiam de minha casa! Não quero vê-los nunca mais! (Sai.)
Entra Susana, como quem estava ouvindo.
Lúcia – E assim, meu caro Cancão, sua manobra falhou. Amanhã, se tiver coragem, venha assistir a meu casamento. Ao civil, pois quando esse tal de Frei Roque chegar, vou convencer Geraldo a se casar ainda hoje no religioso, para me garantir. Aprenda e nunca mais se meta para o meu lado, porque eu sou mais astuciosa do que você.
Cancão – Que é que se pode fazer? Assim é a vida, Dona Lúcia.
Lúcia – E tudo isso sem necessidade! Comigo você só teria a ganhar, eu estava achando você tão simpático!
Cancão – A simpatia era mútua, Dona Lúcia.
Lúcia – Você simpatizou comigo?
Cancão – Muito, desde que a senhora chegou.
Susana – Então só tendo sido coisa feita, porque eu também, assim que cheguei, simpatizei logo com Gaspar.
Gaspar – Pronto!
Lúcia – E você jogar fora essa oportunidade! Geraldo, do jeito que é, não desconfiaria de nada. E tudo ficaria tão animado, não era?
Cancão – (Fascinado, a despeito de si) Era!
Lúcia – Digo isso com inteira convicção, porque desde que cheguei que vi os olhos que você botava para minhas pernas.
Gaspar – Eu?
Lúcia – Ih, como ele ficou envergonhado! Tão puro! Não precisa ter vergonha nenhuma, Cancão, é natural isso. Nos lugares mais adiantados ninguém liga, não é, mamãe?
Susana – (Fascinando Gaspar) Claro, claro!
Lúcia – Você não olhou? Me diga mesmo! Pode olhar, isso é assim mesmo!
Cancão – (Num apelo e num aviso) Geraldo, Geraldo!
Lúcia – Quer saber do que mais, Cancão? Aproveite! Com Roberto aqui e com este sangue que eu tenho, Geraldo vai passar por isso de qualquer maneira! Assim, aproveite que sua vez é essa!
Cancão – Geraldo!
Lúcia – (Abraçando Cancão.) Ai, meu Deus, uma cobra!
Susana – (Abraçando Gaspar) Ai, Gaspar, me acuda!
Cancão – (Absorto.) A cobra?
Gaspar – Ah, sim, a cobra!
Cancão – Que é que tem a cobra?
Lúcia – Uma cobra ali! Ai, Cancão, tenho horror a cobra!
Cancão – Ah, sim, a cobra!
Lúcia – Não é uma cobra não mamãe? Parece que não. Meu Deus! Pensei que fosse! Que coisa horrível, meu coração está batendo que é uma coisa horrorosa! Veja!
Cancão – A cobra?
Lúcia – Não, meu coração! Não fico mais aqui de jeito nenhum, vou para meu quarto. Você me acompanha, Cancão? Não tenho mais coragem de ficar só naquele quarto escuro, horroroso. Venha comigo. Você vem?
Cancão – Vou. (Num último apelo, enquanto se atira no abismo.) Geraldo!
Entram no quarto. Clarão de retrato. Roberto entra, muda a lâmpada e o filme, sem que Gaspar o veja, e desaparece no outro quarto.
Susana – Coitada de minha filha, ficou tão nervosa!
Gaspar – Isso passa, isso passa, Dona Susana!
Susana – E nós? Pau seco não dá embira, nem corda velha dá nó?
Gaspar – Ai, coisa triste no mundo é ficar na cama só!
Susana – (Abraçando-o.) Não é possível, você ainda se lembra. É o amor! Meu Gaspar!
Gaspar – Dona Susana, quais são suas intenções? Olhe que eu já fui casado três vezes!
Susana – O que se perde no tempo, ganha-se na experiência.
Gaspar – Menino, é a finada velhaca todinha!
Susana – A essas horas seu amigo deve estar acalmando Lúcia. Que é que você está esperando?
Gaspar – Dona Susana, mostre o caminho, que por onde a senhora for, eu vou.
Segue Susana como uma virgem de tragédia. Roberto aparece diante do público e tira o retrato, com clarão e tudo. Entra Lúcia, logo seguida de Cancão.
Lúcia – Muito bem, Roberto, você foi um amor. Prezado, Cancão, quero lhe comunicar que você agora está em minhas mãos. Roberto fotografou a cena que você teve a gentileza de proporciona. (Entram Gaspar e Susana.) Seu querido amigo, aqui presente, foi também devidamente fotografado. Qualquer tentativa de impedir o casamento, eu mostro o retrato a Geraldo.
Cancão – (Novamente espantado pelo gênio.) Essa mulher é o cão!
Lúcia – Obrigada!
Cancão – Mas tem uma coisa, Geraldo não vai gostar nada de ver a noiva dele fazendo o que a senhora fez.
Lúcia – No começo eu não fiz um esboço de reação?
Cancão – Fez.
Gaspar – Dona Susana fez o mesmo comigo.
Lúcia – Foi essa parte que Roberto fotografou: “Duas mulheres indefesas resistindo aos assaltantes de sua honra!” A outra parte, ficou entre nós. Mamãe, como se foi?
Susana – Para falar a verdade, vocês não deram tempo, tive que ficar na reação.
Lúcia – Que espírito de sacrifício, poucas mães teriam tanto! Você vem comigo?
Roberto – Vou.
Lúcia – Então, adeusinho. E sejam felizes. (Sai com Roberto.)
Susana – Gaspar, lamento. Mas nós vimos você na cortina: você tremeu um pouco e isso descobriu o jogo de vocês.
Cancão – Eu sabia que você tinha feito alguma besteira!
Susana – Agora, além do mais, essa pressa. Lamento, Gaspar, lamento muito!
Gaspar – Eu mais ainda, Dona Susana!
Susana – Mas nestas circunstâncias, você compreende, nós não podemos facilitar. Enfim... Até loguinho! (Sai.)
Cancão – Então?
Gaspar – Então o que? O sabido não é você?
Cancão – Mas você tremer numa hora dessa, homem?
Gaspar – E você não sabia que eu era frouxo? Por que me botou no fogo? Eu nunca contei vantagem, o valente é você! Mas quando chega o aperto, corre, quem fica de vigia sou eu! Eu que fique atrás da cortina, eu que leve as lapadas...
Cancão – É verdade, desculpe, companheiro. Quantas lapadas levou?
Gaspar – Sei lá, bem oito!
Cancão – Não se incomode não, vamos devolver uma por uma.
Gaspar – Você não se dá por vencido não?
Cancão – De jeito nenhum!
Gaspar – E os retratos?
Cancão – Essa mulher é o cão, mas se você promete me ajudar...
Gaspar – Eu não prometo nada.
Cancão – Você vai abandonar Geraldo nas garras dessa peste?
Gaspar – Ele não me botou pra fora de casa?
Cancão – Você precisa levar em conta que com essa mulher não há quem possa!
Gaspar – Homem, a tirar pela mãe, é mesmo. Que é que você vai fazer?
Cancão – Vou ver se tenho uma conversa com Frei Roque, pra dar um jeito no casamento religioso de Geraldo.
Gaspar – Rapaz, Frei Roque é um santo, mas é duro que Ave Maria! É preciso cuidado, Cancão, a gente vai topar Frei Roque e minhas três mulheres de uma vez só.
Cancão – Por que você diz isso?
Gaspar – Porque a filha eu não sei, quem foi com ela foi você. Mas a velha, pelo menos até onde eu pude ir, é uma mistura da finada safada, da finada velhaca e da finada cachorra da molest’a. (Saem.)
FIM DO PRIMEIRO ATO

SEGUNDO ATO
A mesma sala do primeiro ato. Entram Cancão, Gaspar e Frei Roque. Este fala com pronunciado sotaque estrangeiro.
Cancão – Quer dizer que São Francisco era ali na exata, não era, Frei Roque?
Frei Roque - São Francisco foi o santo mais na exata da Igreja Católica. Mas onde está Geraldo, que você ainda não disse?
Cancão – Mas era homem virtuoso mesmo?
Frei Roque - São Francisco foi o homem mais virtuoso da Europa.
Cancão – Era caridoso? Dava muita esmola?
Frei Roque – Ah, num dia só dava mais esmola do que a Europa toda em dez anos.
Cancão – Mas era homem de coragem?
Frei Roque – De coragem?
Cancão – Sim, era homem valente?
Frei Roque - São Francisco foi o santo mais valente da Igreja Católica.
Cancão – Mas era homem para quebrar a cara dum?
Frei Roque – Cancão, São Francisco era homem para o que desse e viesse!
Cancão – Como é que o senhor sabe?
Frei Roque – E como é que você não sabe?
Cancão – Eu não acredito nessas coragens escondidas não, sabe, Frei Roque? Se ele tivesse sido macho mesmo, a gente terminava sabendo. Pelo menos uma cara ele teria quebrado.
Frei Roque – Ó Cancão, sabe do que mais? É capaz dele ter quebrado!
Cancão – Frei Roque!!
Frei Roque – Eu não tenho certeza não, mas antes de ser santo é capaz dele ter quebrado aí a cara de algum safado.
Cancão – Ai e ele não foi santo logo não?
Frei Roque – São Francisco? São Francisco foi o maior desordeiro da Europa. E é bem possível que nesse meio algum desordeiro tenha se metido a besta para São Francisco e São Francisco pegava o cabra assim pela gola e dizia: “Desordeiro, você agora vai ver quem é São Francisco!” (Agarra Gaspar e vai demonstrando com ele.) E metia-lhe a tapa na cara! Abria a mão assim e lapo!
Gaspar – Ai, Frei Roque!
Frei Roque – Pegava o sujeito assim, fechava a mão lá dele e lapo.
Gaspar – Ai, Frei Roque! Assim eu morro!
Frei Roque – Está ai, viu? Isso é pra não se meter a besta e não querer desmoralizar os santos da Igreja Católica!
Gaspar – Mas o que foi que eu fiz, pelo amor de Deus?
Frei Roque – Oh, Gaspar, como é que vai? Você estava aí, meu filho? Como vai?
Gaspar – (De mau humor.) Bem. Está com a gota serena, é?
Cancão – Ó Frei Roque! E dedicado? São Francisco era muito?
Frei Roque – São Francisco foi o santo mais dedicado da Igreja Católica.
Cancão – Confessou muito? Deu muita extrema-unção?
Frei Roque – Com aquela atividade dele, deve ter dado mais extrema-unção do que todos os santos da Europa, juntos.
Cancão – Acho que São Francisco era incapaz de se recusar a atender um chamado para dar extrema-unção.
Frei Roque – Também acho, Cancão. Podia ser longe como fosse, São Francisco ia.
Cancão – De carro?
Frei Roque – E tinha carro naquele tempo? Ele ia era a cavalo. E lhe digo mais: São Francisco gostava tanto de fazer sacrifício que era capaz de ir a pé. Mas que interesse por São Francisco é esse de repente? Foi me esperar na chegada, haja pergunta, não me deixa procurar Geraldo... Que é que há?
Cancão – Eu fui esperar o senhor a mando desse Roberto Flávio que veio com a noiva de Geraldo. É para dar uma extrema-unção, Frei Roque.
Frei Roque – Mas agora, Cancão?
Cancão – Assim ele mandou dizer.
Frei Roque – E onde é?
Cancão – Daqui a cinco léguas, perto do Pico.
Frei Roque – Nossa Senhora, no Pico, Cancão? Mas eu cheguei de Campinas agora, São mais de vinte léguas!
Cancão – Foi o que eu disse. Mas Roberto Flávio fez questão de transmitir o chamado. Fiquei até espantado, porque parece que ele não liga nada à religião.
Frei Roque – Está-se vendo, um miserável desse! E onde está o carro?
Cancão – Frei Roque, o carro de Herotides foi levar o juiz para uma diligência.
Frei Roque – E como é que eu vou?
Cancão – Foi o que eu disse, mas Roberto Flávio aconselhou o rapaz a alugar um cavalo para o senhor.
Frei Roque – Mas minha Nossa Senhora, cinco léguas a cavalo, na boca da noite, depois de vinte no ônibus de Salustino?
Cancão – Eu disse que era absurdo, mas Roberto Flávio garantiu que isso não era nada para um filho de São Francisco.
Frei Roque – Não é nada! Não vê que quem vai é pobre de Frei Roque?
Cancão – Quer dizer que o senhor não vai não? Acho que não vale a pena mesmo não, um defunto safado, desse de pé-de-serra...
Frei Roque – Ah, Cancão miserável, falando da defuntência dos outros mais pobres do que ele! Pois agora eu vou, Sabe? Mas vou da raiva em que estou, está ouvindo? Onde está o cavalo? Pelo menos essa desgraça presta?
Cancão – É Pêlo-Fino, Frei Roque.
Frei Roque – Pêlo-Fino? Não diga, Cancão! Sabe que essa extrema-unção vai ser até animadinha? Só estou com pena por causa do pobre do defunto.
Cancão – É mesmo, a morte é tão ruim, não é Frei Roque?
Frei Roque – Sei não, Cancão, eu nunca morri... A morte pode ser ruim mas a galopadinha vai ser boa. Você sabe quem é o defunto?
Cancão – É Severino Emiliano, Frei Roque. Seus paramentos estão aqui.
Frei Roque – Então me dê, obrigado. E com a vontade que estou de dar uma galopadinha, Pêlo-Fino que se agüente. Adeus, Gaspar. Adeus, Cancão.
Cancão – Até logo, Frei Roque, Deus o leve. (Sai Frei Roque.) Só um santo mesmo! Cinco léguas a cavalo numa hora dessa! É um santo!
Gaspar – É, mas quando esse santo descobrir a mentira! Por que você inventou essa confusão toda?
Cancão – Com a história do suplente, o casamento civil de Geraldo pode se fazer. Mas com Frei Roque fora, quero ver como é que essa mulher casa com ele no religioso.
Gaspar – Nossa Senhora! Cancão, você vai se meter no inferno! E termina me levando também! Agora, ainda por cima, Dona Guida vai ficar contra nós.
Cancão – Nada! Você trouxe o alicate que eu pedi?
Gaspar – Trouxe. Você vai arrancar os dentes de Dona Guida, é?
Cancão – Ainda mais essa, esse Gaspar tem cada uma! Arrancar os dentes de Dona Guida pra que?
Gaspar – Na dor, ela se distraía por ali e deixava a gente de lado.
Cancão – E como é que eu ia convencer a Dona Guida a arrancar os dentes?
Gaspar – É mesmo. O que é que você vai fazer?
Cancão – Vou cortar o fio da luz aqui. Já está escurecendo e daqui que descubram onde é o defeito, tenho ambiente pra fazer o que quero. Deixe tudo a meu cuidado.
Corta o fio; a luz baixa. Os dois se retiram a um canto. Entram Lúcia, Susana e Roberto, com um candeeiro.
Lúcia – A luz está no fim, que foi? Quem está aí? Quem é?
Cancão – É Cancão, Dona Lúcia, Cancão e Gaspar.
Lúcia – Se Geraldo encontrar vocês... Vieram impedir o casamento de novo? Você não conseguirá nada. O frade chegou: eu convenci Geraldo a casar ainda hoje e o civil será amanhã, quando o juiz chegar.
Cancão – Dona Lúcia, Frei Roque chegou, mas saiu da cidade para fazer uma extrema-unção.
Lúcia – Miserável! Foi você!
Cancão – Eu vim propor um negócio: com o retrato, o casamento de Geraldo é coisa resolvida. Assim, quero ver se pelo menos volto a ser avaliador, porque Geraldo me demitiu. Só quem sabe onde está Frei Roque a essa hora sou eu. Mas é um lugar perto da cidade. Se entrarmos num acordo, eu faço o casamento ainda hoje, tanto o civil como o religioso.
Lúcia – Como, se o juiz também saiu?
Cancão – Só digo se a senhora arranjar a avaliação e minha reconciliação com Geraldo.
Lúcia – Estou com medo de seus negócios, Cancão.
Cancão – Com o retrato não há nada a temer.
Lúcia – Vocês, o que é que acham?
Roberto – Sou pelo acordo. O dinheiro está no fim, e se o casamento for feito hoje, estamos garantidos.
Lúcia – Pois venha de lá esse acordo. Como é que se faz o casamento civil?
Cancão – Com o suplente do juiz, Fragoso.
Lúcia – E existe isso aqui?
Cancão – Existe. Está meio adoentado, levou uma queda de cavalo e está com o rosto enfaixado, mas se a gente der dinheiro a ele, vem.
Lúcia – Eu quero uma garantia, Cancão.
Cancão – A garantia será dada por eles, Frei Roque e o suplente. A senhora me reconcilia com Geraldo?
Lúcia – Reconcilio, mas a avaliação só arranjo depois do casamento. Com você eu não facilito mais. E tem uma coisa: os retratos estão aqui.
Cancão – É o primeiro retrato que tiro na vida. Eu fiquei até bem. Gaspar é que é feio que só a peste! Ave Maria, parece um cavalo. Está bem, Dona Lúcia, estamos entendidos. Gaspar, vá buscar o suplente. (Sai Gaspar.) O juiz fica indignado quando o suplente Fragoso faz casamento na ausência dele, por causa das custas. Mas eu disse que Dona Lúcia pagaria as custas no dobro, uma para o suplente, outra para o juiz, Com o casamento civil feito, vou buscar Frei Roque.
Lúcia – O frade não interessa. Mas como Geraldo faz questão, vou me submeter àquela encenação. Saia, ele vem aí, vou preparar o terreno.
Cancão – Prefiro ficar, quero ouvir o que a senhora diz.
Lúcia – Que homem desconfiado! Está certo, fique aí. (A Geraldo, que vem entrando com Dona Guida.) Geraldo, estou tão feliz! Você não pode imaginar o que aconteceu.
Geraldo – Que há?
Lúcia – Cancão está arrependido do que fez conosco e veio se desculpar.
Geraldo – Não, minha filha, não quero ver Cancão nunca mais. Trair-me daquela maneira!
Lúcia – Você deve levar em conta a situação em que seus amigos vivem, meu filho. Quem vive como eles, não pode ter os padrões morais de nossa classe.
Geraldo – Além de tudo o atrevimento de estar olhando para você como ele fez!
Lúcia – Meu filho, o pobre me explicou tudo, a culpa foi minha. Ele não estava habituado a ver gente vestida assim e ficou olhando. Eu, que não esperava isso, fiquei pensando que era má intenção. Coitado, ele ficou tão agoniado!
Geraldo – É verdade?
Lúcia – O que acontece é que eu sou muito zelosa nessas questões e às vezes me excedo um pouco. Fiquei de coração apertado por causar essa separação entre você e seus amigos. E ele nos fez um favor tão grande para mostrar seu arrependimento...
Geraldo – Que foi?
Lúcia – Frei Roque já chegou. Sabendo disso, Cancão foi procurar o suplente do juiz.
Geraldo – Fragoso! Mas ele está de cama.
Lúcia – Ele prometeu que vinha. Eu acho esse casamento assim dividido tão sem jeito... Tudo podia se resolver ainda hoje, o civil e o religioso, dependendo, é claro, de você e de Tia Guida.
Geraldo – E onde está Cancão?
Cancão – (Avançando.) Aqui, Geraldo.
Dona Guida – Que é isso? O que estão combinando desde hoje?
Cancão – Dona Guida, não se zangue comigo não.
Dona Guida – Ouvi dizer que você estava combinando com aquele ladrão para roubar Geraldo, é verdade?
Cancão – É, Dona Guida.
Dona Guida – Nunca eu poderia acreditar se outro me dissesse. E o que é que você está combinando aí, ladrão?
Cancão – Pronto, entrei nas brincadeiras do juiz! (Alto, a Dona Guida.) Estou aqui dizendo que arranjei o casamento de Geraldo ainda hoje.
Dona Guida – De novo? Sem os banhos?
Cancão – Fica tudo regularizado, Dona Guida. O suplente vem fazer o casamento.
Dona Guida – Fragoso? Outro ladrão, igual ao juiz e a você. E descobri mais essa: você além de ladrão é safado!
Cancão – Dona Guida sempre com brincadeira!
Dona Guida – Brincadeira! Quem é a favor desse casamento é safado!
Geraldo – Mamãe!
Lúcia – Não, Geraldo, é melhor que você saiba logo. Ela me humilha assim porque eu sou pobre. Tia Guida pensa que o que eu quero é seu dinheiro.
Geraldo – Ah, dinheiro amaldiçoado! Não está vendo que mamãe não ia pensar isso, meu amor?
Lúcia – Não ia? Todos os atos dela indicam isso!
Dona Guida – O que é que meus atos indicam? Fale aí, cabrita malcriada!
Geraldo – Mamãe, isso também é demais!
Dona Guida – É demais? Pois vá. Faça o seu casamento, aja como quiser, eu não estou me incomodando mais com nada. Quando terminarem, avisem: eu quero sair de casa. Quando se arrepender, também mande dizer. Porque aí quero voltar. (Sai.)
Geraldo – Mamãe...
Lúcia – Meu Deus, como fui mal interpretada! Ela falou em arrependimento, em abandono... Quem sabe? Talvez fosse melhor nós acabarmos esse casamento!
Geraldo – Mas meu bem!
Lúcia – Ela suspeitará sempre de mim. Você prefere acabar?
Geraldo – Não, nunca! Mas isso de mamãe passa!
Lúcia – Passará mesmo, Geraldo? Não sei. Mas para evitar qualquer suspeita, nós nos casaremos com separação de bens.
Geraldo – Lúcia!
Lúcia – Se você não aceita, prefiro romper!
Geraldo – Então está bem. Envergonho-me do que minha mãe fez! Mas se houvesse um jeito dela concordar...
Cancão – Frei Roque concorda e Dona Guida assina em cruz tudo o que ele diz. Deixe por minha conta que eu ajeito isso, Geraldo.
Geraldo – Agora sim, estou vendo de novo meu velho Cancão. Venha de lá esse abraço!
Cancão – Vá dizer a Dona Guida a opinião de Frei Roque. Diga que o frade chega já para confirmar tudo. E venha que Fragoso não tarda.
Geraldo – Está bem. (Sai.)
Cancão – Muito bem, Dona Lúcia, agora a avaliação.
Lúcia – Primeiro o casamento. Ruim foi essa separação de bens, mas era preciso impressionar o rapaz.
Cancão – A gente dá um dinheirinho ao suplente e, no contrato, em vez de “separação de bens”, ele bota “comunhão de bens”.
Susana – Mas quando se fizer a leitura, Geraldo notará.
Cancão – Geraldo não presta atenção a nada. Dona Lúcia ajeita isso com um daqueles abraços de cobra.
Roberto – Mas quanto teremos que dar?
Cancão – Mil, eu acho que dá.
Geraldo – Quanto ainda lhe resta, mamãe?
Susana – Duzentos e cinqüenta.
Geraldo – Roberto tem seiscentos que eu dei a ele. Você acha que dá?
Cancão – Vamos ver, nessas coisas a justiça não transige. E aí vem Fragoso, juiz de Direito na ausência do titular, substituto de tabelião, fanhoso, gago e comerciante de miudezas nas horas vagas.
Entra Manuel Gaspar, vestido de toga e com o rosto inteiramente coberto de gaze e esparadrapo, de modo a que o público não o reconheça.
Gaspar – Senhores, despachemo-nos. Vou proceder à leitura do contrato.
Cancão – Um momento, Doutor Fragoso. Ali onde diz “sendo feito o casamento pelo regime, etc.”, nós queríamos que o senhor colocasse “pelo regime de comunhão de bens”.
Gaspar – Mas meu caro Cancão, isso é feito pelo noivo, na sua presença!
Cancão – Doutor, a gente lhe dá oitocentos e cinqüenta pra isso.
Gaspar – Mas oitocentos e cinqüenta, Cancão? Está tudo tão caro!
Cancão – O que se arranjou foi isso, Doutor. O mais que se pode fazer é eu mesmo entrar na cota.
Gaspar – Ah, então faltava você! Quem não fala, Deus não ouve! Quanto significa isso?
Cancão – Oitenta.
Gaspar – Total?
Cancão – Novecentos e trinta.
Gaspar – Vá lá. É pouco, mas como são hóspedes, não quero desmoralizar a hospitalidade sertaneja. Cancão, queira servir de escrevente e colocar a palavra em questão.
Cancão – “Pelo regime... pelo regime... de comunhão de bens”. Muito bem, agora só falta o noivo.
Gaspar – Chamo sua atenção para a outra parte do acordo.
Cancão – Que outra parte?
Susana – O novecentos.
Gaspar – Os novecentos, não, os novecentos e trinta.
Cancão – Ah, é verdade, que distração a minha! Bem, o resto fica a cargo de vocês.
Gaspar – (Não se dominando.) Cancão, eu gostaria tanto que você ficasse!
Cancão – Não é possível que eu faça um casamento melhor do que um juiz!
Roberto – Você não fica?
Cancão – Vou buscar Frei Roque para ele convencer Dona Guida e fazer o religioso. Até já e felicidades. (Sai.)
Lúcia – Bem, se estamos nesse ponto, vá buscar o noivo, mamãe. (Sai Susana.)
Roberto – Chegou a hora. Tanto lutamos por isso, mas quando chega o momento... Você vai casar e me esquecer.
Lúcia – Que é isso? Está triste? Por você eu faço tudo! Vá me procurar hoje à noite!
Roberto – Hoje, Lúcia?
Lúcia – Hoje, por que não? Acharei jeito de despachar aquele idiota.
Roberto – Mas Lúcia, Geraldo pode desconfiar!
Aquilo é uma besta!
Roberto – Está certo. Onde, então?
Lúcia – Aqui mesmo. Mando o marido para o quarto e venho. Está combinado?
Roberto – Está.
Entram Susana e Geraldo.
Gaspar – As partes estão presentes?
Geraldo – Estão.
Gaspar – Então vamos ao ato. “Eu, João Pinto Barbosa de Carvalho Falcão, escrivão do registro civil de casamentos, em virtude da lei etc., etc... certifico que a flis”...
Lúcia – A flis?
Lúcia – É “a folhas”, Doutor Fragoso.
Gaspar – Eu sei, eu sei. Não interrompam a suplência da autoridade. “Certifico que a folhas 144 verso, do livro número 36, foi feito o hoje o assento do matrimônio”... Engraçado isso, assento do matrimônio. Não sabia que matrimônio tinha assento não, mas como está no livro, eu boto. “O assento do matrimônio de Geraldo Queirós da Mota Vilar e”... E quem?
Lúcia – Lúcia Renata Pereira da Silveira.
Gaspar – Lúcia Renata Pereira da Silveira. Engraçado, isso.
Lúcia – Engraçado por quê?
Gaspar – É rimado, como verso. Mas se é assim eu boto. “O assento do matrimônio de Geraldo Queirós da Mota Vilar e Lúcia Renata Pereira da Silveira, contraído”... Está, pode ser exagero, mas que é engraçado é. Contraído, casamento civil é feito febre tifo, contrai-se. Mas como está no livro, eu boto. “Contraído perante etc., etc., e sendo feito o casamento pelo regime de comunhão”...
Lúcia – (Abraçando Geraldo.) Meu bem!
Geraldo – Que é?
Lúcia – Estou tão emocionada!
Susana – (A Gaspar.) O acordo, idiota!
Gaspar – Hein? Ah, sim, foi a embalagem! Tudo está esclarecido. “Sendo feito o casamento pelo regime de separação de bens.”
Geraldo – Mas minha filha, você fez questão mesmo?
Susana – Que desprendimento! É um anjo!
Gaspar – Queiram assinar todos. Noivo... Noiva... Primeira testemunha... Segunda testemunha... Senhores, meus parabéns a todos. (Abraça Geraldo e sai.)
Lúcia – E então? Que cara é essa? Não me beija. Não me diz nada... Está triste com a coleira?
Geraldo – Nada, mas você há de ter notado que minha mãe não veio.
Lúcia – Cancão foi buscar Frei Roque e, com os conselhos dele, Tia Guida abranda. Olhe lá!
Entra Cancão, vindo do interior, empurrando a cadeira de Dona Guida, vestido como Frei Roque, com barbas postiças e imitando seu sotaque.
Dona Guida – Quer dizer então que agora o senhor aderiu à safadeza?
Cancão – Não, Dona Guida, mas é preciso encarar a realidade. O negócio já está feito. A moça veio, é uma moça boa, ficou na casa do noivo, o povo pode falar. É uma coisa que São Francisco não gosta, nem São Francisco nem a Igreja Católica.
Dona Guida – E como é que você sabe que a moça é boa, Frei Roque?
Cancão – Cancão não me contou a história do casamento com separação de bens?
Dona Guida – Casamento com separação de bens? Que é isso?
Cancão – Essa moça que é boa! Para ninguém pensar que era interesse dela, quis casar com separação de bens. Coisa muito bonita, São Francisco gosta e a Igreja Católica também!
Dona Guida – Essa, eu só acredito vendo!
Geraldo – Pois veja, mamãe! O livro está ali!
Dona Guida – Não chamei você aqui! Frei Roque, leia o livro!
Aflição de Lúcia, Susana e Roberto.
Cancão – Pois não, é já!
Lúcia – (Chorando, para evitar a leitura.) Ah, Geraldo, até disso sua mãe desconfia!
Cancão – Pobrezinha! Dona Guida, francamente! São Francisco não gosta disso de jeito nenhum. Francamente! Você viu o livro, Geraldo?
Geraldo – Vi, Frei Roque, ouvi a leitura e tudo!
Cancão – (Pegando o livro, mas sem ler.) Olhe aí, está aí.
Dona Guida – Leu?
Cancão – E então, separação de bens, está vendo? Geraldo ouviu tudo! Moça muito boazinha, muito desprendida! São Francisco gosta muito disso!
Dona Guida – Então eu estava enganada. Confesso que nunca esperei isso.
Geraldo – E concorda com o casamento?
Dona Guida – (A Cancão.) O senhor se responsabiliza?
Cancão – Pois não, sem nenhuma dúvida. Por mim e por São Francisco.
Dona Guida – Então vá lá!
Geraldo – Graças a Deus! Lúcia, venha cá, mamãe vai nos abençoar. (Ajoelham-se diante de Dona Guida.)
Dona Guida – (De mau humor.) Deus os abençoe.
Cancão – Ótimo, ótimo, vamos ao casamento, o sacristão Gaspar chegou. (Entra Gaspar, vestido comumente.) Gaspar, venha me ajudar. (Entrega-lhe a corda que trouxe na cintura, à guisa de cordão.) Isso aqui é o cordão de São Francisco. Meu casamento é feito pela igreja de São Francisco, tudo na lei dele. Quem é a primeira testemunha?
Roberto – Eu.
Cancão – Você fica aqui, perto do sacristão.
Roberto – Pra que?
Cancão – Para tomar parte no rito. Comigo é tudo do jeito que São Francisco fazia.
Roberto – Mas eu não sei fazer nada!
Cancão – Você não precisa fazer nada, o sacristão Gaspar se encarrega de tudo.
Gaspar – E para que é esse cordão, Frei Roque ?
Cancão – Você fica aqui e cada vez que disser “Amém”,dá uma lapadinha nas costas dele.
Roberto – Isso é ridículo!
Cancão – A lapadinha é pequena!
Roberto – Não me submeto de modo nenhum!
Cancão – Então não se faz o casamento! (Senta-se e cruza os braços.) Ou se faz como São Francisco mandava, ou não se faz de jeito nenhum!
Lúcia – Roberto, é somente uma formalidade.
Roberto – Então está certo. Mas isso demora?
Cancão – Não é já. “ Oremus. Propitiare, Domine, bero-bero, bero-bero, bero-bero, dura lex sed lex, Geraldus et Lucia, per omnia saecula saeculorum.”
Gaspar – Amém.
Dá uma lapada em Roberto. O “bero-bero” é feito à vontade do ator, imitando um latim engrolado de sacristão, com pausas, suspiros, tudo disparado.
Roberto – Ai!
Gaspar – Eu dei devagar!
Cancão – Deve ter pegado de mau jeito. “Geraldus et Lucia bero-bero, bero-bero, bero-bero, per omnia saecula saeculorum”
Gaspar – Amém.
Roberto – Olhe como dá, idiota!
Gaspar – Que foi?
Roberto – Eu não fico mais aqui de jeito nenhum!
Cancão – Então não se faz o casamento! (Senta-se de novo.)
Susana – Roberto, fique!
Geraldo – Faça esse sacrifício por nós, companheiro. Frei Roque é cheio dessa coisas!
Roberto – Está bem. Ainda demora?
Cancão – É já. “Dominus vobiscum, bero-bero- bero-bero, bero-bero, Geraldus et Lucia per omnia saecula saeculorum.”
Gaspar – Amém.
Cancão – (Disparado, para não dar tempo a queixas.) Bero-bero,bero-bero, bero-bero, errare humanum est.
Gaspar – Amém.
Cancão – Dominus vobiscum.
Gaspar – Amém.
Cancão – Dura lex sed lex.
Gaspar – Amém.
Cancão – Geraldus et Lucia per omnia saecula saeculorum.
Gaspar – Amém, amém.
Roberto – Ai! Eu...
Cancão – Pronto, pronto!Terminou, estão casados.
Dona Guida – Já?
Cancão – Já. Padre que não despacha depressa, nem sabe latim nem São Francisco gosta.
Dona Guida – E a prática? Casamento sem prática pra mim não vale.
Cancão – Não seja por isso, é já. Lucia ,Geraldo, sejam bonzinhos, tenham vergonha, pronto, São Francisco gosta, Deus também gosta, dá tudo certo. Até logo, sejam felizes.
Dona Guida – Pronto? É só isso?
Cancão – O resto é parapapá, eu não estou para isso não! Vou buscar a bagagem que deixei no hotel de Dadá. Até amanhã. (Sai.)
Lúcia – Meu amor, estou tão emocionada...
Geraldo – Eu também, a cerimônia foi linda. Mamãe...
Dona Guida – Está certo, está certo. Felicidades, Deus os abençoe. Casaram, sejam felizes. E vamos à festa.
Susana – Guida, minha prima! Tão dedicada! Você teve essa atenção com minha filha, amor?
Dona Guida – Com sua filha, não, amor, com o meu filho, viu? Vamos. (Saem Geraldo, Lúcia, Roberto e Dona Guida.)
Susana – Gaspar, querido Gaspar! Estou tão emocionada! (Abraça-o.)
Gaspar – Ai, ai, ai! Quais são suas intenções?
Susana – Você não está comovido não? Que coração pedra! Eu devia ficar zangada, principalmente porque estou vendo as suas muito bem. O que você quer é terminar aquilo que começou.
Gaspar – Dona Susana, eu não disse nada.
Susana – Ah, é assim? Além de maldoso, é hipocritazinho, hein? Pois, por castigo, eu concordo em terminar. Que acha?
Gaspar – Dona Susana, a essa altura dos acontecimentos, eu me entrego à minha sorte.
Susana – Vamos então aproveitar a escuridão. Quando todo mundo estiver deitado, venha cá. Eu deixarei a porta da frente encostada, com a luz assim, ninguém verá nada. Está bem?
Gaspar – Está ótimo.
Susana – Então até lá, ingrato, coração de pedra, bandido que assaltou meu coração.
Gaspar – Até lá, safada, alma de serrote, ladrona que roubou minha solidão!
Sai Susana. Cancão entra, vestido normalmente.
Cancão – Então? Tudo em paz?
Gaspar – Tudo em paz, ninguém desconfiou de nada.
Cancão – E o latim como saiu?
Gaspar – Passou perfeitamente. Mas quando Frei Roque chegar, minha Nossa Senhora! E eu, ainda por cima, me meti noutra enrascada, Cancão.
Cancão – Que foi, homem de Deus?
Gaspar – Meti-me de novo com a velha e marquei um encontro com ela aqui. Ela vai deixar a porta aberta e eu venho.
Cancão – Mas como foi isso, homem?
Gaspar – Sei lá! Veio com um negócio de bandido, coração de pedra, não sei o que, quando eu vi estava pegado.
Cancão – Pois quando você vier, eu venho também.
Gaspar – Não senhor! Que é que você tem com isso?
Cancão – É preciso abrir os olhos de Geraldo.
Gaspar – Está certo, mas uma coisa eu lhe digo: não me atrapalhe! Dessa vez, eu vejo até onde aquela mulher vai. E tem uma coisa: vou até o fim e é com retrato ou sem retrato! (Saem.)
FIM DO SEGUNDO ATO
TERCEIRO ATO
A mesma sala. Barulho de festa, fora. Ainda com a luz baixa: já anoiteceu completamente. Entram Cancão, Gaspar e Roberto Flávio.

Cancão – Você pode não ter com a cara dele, mas Frei Roque é um santo.
Roberto – Pode ser santo como for. Agüentei tudo calado por causa da Lúcia e do casamento, mas agora quero que ele me venha com essa Igreja de São Francisco pra ver uma coisa!
Cancão – Para conquistá-lo o negócio é elogiar a Igreja de São Francisco. Ele diz sempre que existem duas Igrejas: uma é a católica, dos católicos comuns, como eu e você.
Roberto – Como eu, não. Sou um espírito emancipado.
Cancão – Pois então como eu e o Gaspar. Essa é a Igreja comum, dos católicos safados. A outra é a Igreja de São Francisco, a Igreja dos santos. Diz ele que somente esta é a que importa. Você devia ter arranjado para ele uma dessas cerimônias que a Igreja de são Francisco prestigia.
Roberto – E que interesse eu tenho de agradar aquele idiota?
Cancão – Ah, ele é prestigiadíssimo no Recife. É capelão das associações mais ricas de lá. Agrade Frei Roque e tudo quanto é gente importante do Recife fica louco por você.
Roberto – É mesmo?
Cancão – Por que você não arranja uma extrema-unção para ele? Os frades da Igreja de São Francisco têm uma verdadeira mania de dar extrema-unção, acham que não se deve esperar pela hora da morte para isso.
Roberto – E onde é que eu vou arranjar um defunto a essa hora?
Cancão – Aqui perto tem um rapaz que esta com a passarinha meio estufada.
Roberto – Quem é?
Cancão – É um tal Severino Emiliano.
Roberto – Então vou ver. Contanto que ele não me venha mais com as cerimônias da Igreja dele. (Sai)
Gaspar – Companheiro, socorro! Frei Roque vem ali e vem com a gota serena!
Cancão – Não é possível, Gaspar, não deu tempo!
Gaspar – Tanto deu que ele vem! Ai!
Frei Roque entra como um furacão e agarra Cancão pela gola.
Frei Roque – Ah, você está aqui! Cancão safado, Cancão mentiroso!
Gaspar – A bênção, Frei Roque!
Frei Roque – Deus o abençoe! Cancão, eu pensava que você prestava, mas descobri que você é um cancão muito safado. E você vai me pagar!
Gaspar – A bênção, Frei Roque!
Frei Roque – Deus o abençoe, Gaspar! Vai me pagar para aprender quem são os filhos de São Francisco. Prepare a tábua do queixo!
Gaspar – A bênção, Frei Roque!
Frei Roque – Deus o abençoe, Gaspar! Ora, pinóia, já abençoei mais de cem vezes!
Gaspar – E bênção só se pode dar uma vez, é?
Frei Roque – Não, mas não quero que você interrompa minha raiva!
Gaspar – Ah, o senhor está com raiva?
Frei Roque – Estou, você não está vendo?
Cancão – Mas por que isso tudo?
Frei Roque – Você ainda pergunta, bandido, miserável, canalha, assassino dos filhos de São Francisco! Encontrei Severino Emiliano na estrada, ele está com mais saúde do que eu!
Cancão – E o que é que eu tenho com isso? Eu só fiz transmitir o recado que Roberto Flávio lhe mandou.
Frei Roque – Roberto Flávio!
Cancão – Bem que ele estava dizendo que ia fazer isso, mas eu nunca pensei que ele fosse capaz!
Frei Roque – Capaz de quê?
Cancão – De fazer uma perseguição dessa com os frades da Igreja Católica! Só porque ele pertence a outra igreja, acha-se com o direito de desrespeitar os frades da nossa!
Frei Roque – E ele pertence a outra igreja, é?
Cancão – Roberto Flávio pertence a uma dessas igrejas que saem da Igreja Católica e ficam dizendo que ela é errada.
Frei Roque – Um herege, logo vi! Perseguindo assim os frades! Qual é a igreja dele?
Cancão – Diz ele que é a Igreja de São Francisco.
Frei Roque – Tem graça! E a Igreja de São Francisco não é a Igreja Católica?
Cancão – Diz ele que não. Roberto Flávio acha que São Francisco tinha verdadeiro horror à Igreja Católica.
Frei Roque – Vê-se logo a heresia desse bandido, desse mentiroso!
Cancão – Mas o que eu achei pior foi ele dizer: “Ah, Frei Roque diz que São Francisco era católico, é? Pois esse frade vai me pagar!”
Frei Roque – Ah, entendo! Aí arranjou essa extrema-unção para o pobre de Frei Roque, não foi? Pois ele agora vai ver quem é pobre de Frei Roque!
Cancão – Diz ele que o maior prazer que tem na vida é desmoralizar frade.
Frei Roque – Ah, ele diz isso, é? Gosta de desmoralizar frade, é? Esse Roberto Flávio, astucioso e ruim desse jeito só pode ser o cão ou o secretário dele!
Cancão – E quando ele começa a insultar a Igreja?
Frei Roque – E ele insulta a Igreja, Cancão?
Cancão – Ele disse aqui que a Igreja Católica era igreja de cabra safado!
Frei Roque – Ah, ele diz isso, é? É igreja de cabra safado, é? Onde é que anda esse camarada, hein, Cancão?
Entra Roberto Flávio.
Roberto – Frei Roque, prazer em vê-lo. Estava louco para encontrá-lo, tenho uma extrema-unção para o senhor fazer.
Frei Roque – Pode me dizer quem é o defunto?
Roberto – É um rapaz chamado Severino Emiliano.
Frei Roque – Severino Emiliano... (Acordando). Ô rapaz, o que é que você acha da Igreja Católica?
Roberto – Aquilo é lá Igreja! Igreja é a de São Francisco!
Frei Roque – Ah, e não é a mesma coisa não? A Igreja Católica não é a Igreja de São Francisco não?
Roberto – De modo nenhum. Uma é a Igreja dos católicos safados, a outra é a dos santos.
Frei Roque – Ah, sim, pode fazer o favor de dizer o seu nome, pra eu ter certeza?
Roberto – Roberto Flávio, para servi-lo.
Frei Roque – Você vá servir ao diabo, viu? E tome! (Dá um soco em Roberto e ele desmaia). Tome, para nunca mais dizer que a Igreja Católica é igreja de cabra safado, viu?
Gaspar – Danou-se! Vai dormir uma hora!
Frei Roque – Não tem nada não, depois acorda e pode servir de exemplo! Onde é o quarto dele?
Gaspar – Ali.
Frei Roque – Peguem o resto do herege e botem lá! Uma coisa eu garanto: insônia hoje ele não tem! (Põem Roberto num quarto). Onde está Geraldo?
Cancão – Geraldo está meio adoentado, Frei Roque. Acho melhor não falar com ele hoje.
Frei Roque – Eu não falar com Geraldo? Tinha graça! Vou de qualquer jeito!
Cancão – Vá não, Frei Roque! Dona Guida também está doente!
Frei Roque – Cancão, aqui há alguma coisa! Toda vez que eu quero me aproximar de Geraldo ou Dona Guida hoje, aparece uma história. Vou saber o que é isso!
Cancão – Não, por aí não, Frei Roque!
Frei Roque – Por aqui não por quê?
Cancão – (Munindo-se de um pau) Olhe ali na janela que o senhor entenderá tudo!
Frei Roque – Na janela? Não estou vendo nada!
Cancão – Está não? Então, Deus me perdoe, mas é o jeito (Dá uma paulada em Frei Roque, que desmaia). Chegue aqui, Gaspar!
Gaspar – Eu não! Pode ser que ele ainda esteja vivo!
Cancão – Está, homem de Deus! Não está vendo que eu não ia matar Frei Roque?
Gaspar – Pois se ele está vivo, aí é que eu não vou!
Cancão – Ora bolas, não tem perigo não! Vamos amordaçá-lo! Isto! Baixe o capuz para cobrir a cara dele. Isto! Agora, vamos trancá-lo! (Põem Frei Roque amordaçado e amarrado dentro da mala ou guarda-roupa) Agora tudo vai bem. A velha prometeu deixar a porta aberta?
Gaspar – Prometeu. Mas não vá atrapalhar minha vida não!
Cancão – Dessa vez você vai, deixe comigo!
Entram Dona Guida, Susana, Geraldo e Lúcia.
Dona Guida – Pronto, meu papel terminou. O quarto de vocês é aquele. Eu dormirei no de junto, Susana ali e o rapaz aqui. Amanhã deixarei a casa.
Geraldo – Mas mamãe, a senhora fica morando conosco!
Dona Guida – Não! Existem algumas coisas que é preciso enfrentar!
Geraldo – Tudo não foi feito como devia?
Dona Guida – Foi, e Frei Roque garantiu tudo. Mas mesmo assim eu quero ir. Vou lhe dar a caderneta onde anoto as contas. Tudo agora é seu. Fique com a maleta também.
Geraldo – Mas mamãe!
Susana – Receba, meu filho, sua mãe pode se ofender!
Dona Guida – Veja como esse anjo entende logo tudo! Assim é que se vive, meu filho. Tome e até amanhã.
Cancão – Nós também vamos saindo, Dona Guida.
Dona Guida – Adeus, ladrão. (Sai.)
Cancão – Dona Guida sempre com brincadeiras! Muito bem. Dona Lúcia, creio que me limpei completamente!
Lúcia – Minha gratidão será eterna!
Susana – Vocês não viram Roberto por aí não?
Cancão – Está dormindo! Disse que precisava descansar um pouco e foi para o quarto.
Lúcia – Ah!
Gaspar – Eu também vou chegando! Boa noite a todos!
Susana – A mim também?
Gaspar – A senhora mais do que a todos! Boa Noite! (Saem Cancão e Gaspar.)
Susana – Bem, creio que nós também devemo-nos recolher. (Falsamente emocionada.) Meus filhos!
Lúcia – Lá vem mamãe com o chororô dela!
Susana – Você logo saberá quanto sofre uma mãe! Mas não se incomodem, já tomei minhas providências para me consolar! Boa noite e... felicidades. (Sai, Geraldo abraça Lúcia.)
Geraldo – Meu amor!
Lúcia – Ah, é assim, hein? Mal fica comigo... Como são os homens! Enfim, eu o perdôo porque você me ama. Ou não?
Geraldo – Mais do que a tudo, meu bem!
Lúcia – Então vá me esperar em nosso quarto. Estou contente, contentíssima! Mas ao mesmo tempo, como é dolorosa a separação!
Geraldo – Estarei esperando por você!
Sai Lúcia para o interior da casa. Ela deve levar consigo o candeeiro. A cena subseqüente deve se passar em escuridão quase completa. O encenador não tenha medo do escuro, as silhuetas e as falas bastam para identificar os personagens e em simples penumbra esta cena funciona muito mal. Geraldo entra no quarto. Imediatamente entra Susana e destranca a porta da rua, voltando para o seu quarto. Entram Cancão e Gaspar, aquele novamente vestido de frade.
Cancão – Gaspar!
Gaspar – Hein!
Cancão – Não estou vendo nada!
Gaspar – Nem eu! Mas uma coisa eu sei: o quarto da velha é aquele.
Cancão – O que deram a Geraldo foi esse, não foi?
Gaspar – Foi, mas Geraldo não interessa!
Cancão – Vamos verificar!
Gaspar – Vamos, não, vá você! Eu preciso ir lá dentro.
Cancão – Fazer o quê?
Gaspar – Tomar uma fresquinha, aqui está muito quente.
Cancão – Gaspar!
Gaspar – Vá se danar, eu quero é a velha! (Desaparece no interior da casa. Cancão bate no quarto de Geraldo.)
Cancão – Geraldo! Geraldo!
Geraldo – (Abrindo a porta e abraçando-o.) Meu amor!
Cancão – Epa! Que negócio é esse? Vá pra lá!
Geraldo – Ingrata, cruel! Não se envergonha de me tratar assim?
Cancão – Era o que faltava!
Geraldo – Que é isso? Você está de barba? Frei Roque! É o senhor?
Cancão – Claro! Pensava bem que era São Francisco?
Geraldo – Peço que me desculpe, mas não podia nunca esperar o senhor agora! Que há?
Cancão – Fale baixo. Não diga nada, depois eu explico tudo. Venha para cá e se esconda aqui comigo. Aqui. Venha homem!
Geraldo – Mas Frei Roque, minha mulher...
Cancão – Sua mulher vem já. Abra os olhos e os ouvidos, mas não diga nada, haja o que houver!
Escondem-se. Entra Susana.
Susana – Gaspar! Gaspar! Onde está você, coração de pedra?
Gaspar – (Voltando do interior.) Aqui, coração de aço! Agora pau dá embira e corda velha dá nó!
Susana – Pois venha que eu não suporto mais ficar na cama só!
Gaspar – Ah, a poesia! Nada como a poesia! (Pausas e risos sufocados.)
Susana – Gaspar, Gaspar! Deixe de ser mauzinho, malvado!
Gaspar – Malvada é você, tirana, bridão de meu peito, rabichola de meu coração!
Susana – Vem gente, corra! Esconda-se que eu já volto. (Correm. Entra Lúcia.)
Lúcia – Roberto! Roberto!
Roberto – Au, au, au!
Lúcia – Ai, é meu cachorro! Onde está você malvado?
Roberto – Aqui. Au, au, au!
Lúcia – Ai! Você está bem?
Roberto – Um pouco tonto, não sei o que aconteceu. E seu marido?
Lúcia – A essa hora, já deve estar dormindo, aquele palhaço!
Roberto – É palhaço, mas foi com ele que você casou.
Lúcia – Você sabe que tive meus motivos. Avalie se não arranjo esse idiota para financiar nós dois! Você ouviu um barulho?
Roberto – Não.
Lúcia – Parece que alguém se mexeu num desses quartos horríveis! Saia, eu volto já! Cuidado, parece que vem gente! (Correm. Gaspar entra, tateando.)
Gaspar – Amor, onde está você?
Roberto – (Também voltando.) Amor, é você?
Gaspar – Sou. Onde está você, coração de pedra?
Roberto – Aqui. Que rouquidão é essa? Está gripada?
Gaspar – Que gripado que nada! Você também está tão rouquinha, coração de lajedo!
Roberto – Au, au, au!
Gaspar – Ah, agora deu pra latir, hein? Deixe ver cá essa cachorra!
Roberto – Ai, não me faça cócegas! Au, au, au!
Gaspar – Menino, é direitinho a finada cachorra da molést’a!
Aqui Cancão liga o fio que tinha cortado e a cena se ilumina de repente. Os dois têm acabado de se beijar. Eles dão um enorme salto de surpresa.
Roberto e Gaspar – Ai!
Acorrem todos, Dona Guida, Susana e Lúcia. Geraldo, arrasado, sai do esconderijo com Cancão.
Cancão – Muito bem, senhor Roberto Flávio! Pode explicar Por que beijou Gaspar?
Gaspar – E eu sabia lá que era esse fantasma!
Cancão – Cale a boca, ouviu, Gaspar? Você é um safado, vai ter que explicar tudo direitinho depois. Mas agora quero saber é o seguinte: quem vocês pensavam que estavam beijando? Responda, senhor Roberto!
No lugar em que estiver trancado, Frei Roque dá três pancadas furiosas e espaçadas, para chamar a atenção. Dona Guida pensa que as batidas são na porta da rua.
Dona Guida – Estão batendo. Quem é?
Gaspar – (A meia-voz, para disfarçar.) Sou eu.
Dona Guida – Pode entrar.
Cancão – Como é, ninguém me responde? Quero saber que safadeza é essa! A mulher deixa o marido, os dois se beijam... Que é isso? (Novas pancadas de Frei Roque.)
Dona Guida – Quem é?
Gaspar – Sou eu.
Dona Guida – Pode entrar!
Cancão – Preciso de uma resposta! São Francisco está muito desconfiado disso tudo! Fale, fale imediatamente!
Roberto – Fale imediatamente o quê? O senhor pensa que eu ainda estou disposto a suportá-lo? Um frade idiota, safado, cheio de maluquices! Já estou cheio de sua batina, sabe? E pergunto por minha vez: o que é que um frade faz aqui, a essa hora, espionando a vida dos outros? (Novas pancadas de Frei Roque.)
Dona Guida – Ora bolas, quem é?
Gaspar – Sou eu.
Dona Guida – Não já disse que pode entrar? Entre logo e deixe Frei Roque brigar descansado!
Susana – Mas por que tudo isso?
Cancão – Por quê? Porque assumi a responsabilidade do casamento de Geraldo e ele agora está desgraçado!
Dona Guida – Frei Roque, desgraçado está você, porque essa você me paga! Que foi que houve?
Cancão – Sua nora marcou encontro aqui com esse vigarista, e a mãe dela outro, com Gaspar.
Lúcia – Ai, Geraldo, não deixe esse demônio me caluniar! Geraldo! Você não diz nada? Não posso acreditar que você desconfie de mim!
Geraldo – Eu também jamais acreditaria nisso, se me dissessem!
Lúcia – Mas você não está vendo que tudo isso é maluquice desse frade louco?
Geraldo – Como, se eu mesmo ouvi tudo daqui? Basta, Lúcia, é melhor não falar mais nisso! Só me lembro é de pobre de Cancão! Com que dureza eu o tratei porque ele queria me ajudar!
Cancão – Uma pessoa extraordinária daquela!
Geraldo – Ah, se eu o tivesse ouvido! Mas agora é tarde, casei-me no religioso e casei-me porque quis. Só posso esperar agora a vontade de Deus!
Gaspar – Que pelo jeito vem por aí!
A porta da mala abre-se com enorme violência e Frei Roque salta, furioso, para a sala. Ele vai investir contra alguém, mas pára, estupefato, ao ver outro frade.
Cancão – Ó, Frei Marcelo, como vai? Estava aí?
Frei Roque – Uh, uh, uh! (Tenta contar por mímica a história da cacetada, anda por todos os cantos da sala, olha para baixo dos móveis à procura de Cancão.)
Dona Guida – Afinal de contas, quem é esse frade?
Cancão – É Frei Marcelo, gente boa! São Francisco gosta muito dele!
Frei Roque – Uh, uh, uh!
Dona Guida – Parece que ele está tentando apontar a boca.
Cancão – Usa essa mordaça como penitência! É uma pessoa muito piedosa, só gosta de viver amarrado, fazendo penitência! São Francisco gosta muito dele!
Frei Roque – (Negando com a cabeça.) Uh, uh, uh!
Cancão – Está vendo, é assim, só vive sem falar, é um frade muito virtuoso!
Dona Guida – Pode ser virtuoso como for, diga a ele que vá embora. Tenho horror a esses frades que se trancam na mala da gente!
Frei Roque – (Interrogando.) Uh,uh,uh? Uh, uh uh?
Geraldo – Parece que ele está perguntando por alguém.
Cancão – Que nada, Frei Marcelo detesta procurar gente!
De repente Frei Roque avista Gaspar. Num repelão, consegue soltar as mãos e corre para ele, aberturando-o.
Gaspar – (Ajoelhando-se.) Ai, pelo amor de Deus, Frei Roque, não fui eu não! Não dê em mim não, Frei Roque!
Cancão – E quem está dizendo que eu vou dar em você?
Frei Roque – Uh, uh, uh!
Gaspar – Foi cancão, Frei Roque!
Frei Roque – E uh, uh, uh, uh?
Gaspar – Onde está Cancão?
Frei Roque – (Afirmando com a cabeça.) Uh! Uh!
Gaspar – (Ajoelhado, com a mão cobrindo o rosto, aponta Cancão.) Ali!
Frei Roque solta Gaspar, corre para Cancão, agarra-o e, na briga, arranca-lhe a barba.
Geraldo – Cancão!
Susana – (Desmaiando.) Ai!
Frei Roque aponta a mordaça, Geraldo tira-a e baixa o capuz.
Geraldo – Frei Roque!
Cancão – (Fingindo desmaio.) Ai!
Frei Roque – (Sufocado de raiva.) Bandido, miserável, assassino dos filhos de São Francisco, peste, diabo, danado, agora você me paga!
Geraldo – Calma, calma, Frei Roque!
Frei Roque – (Aos gritos.) Eu estou calmo! Eu estou calmo!
Dona Guida – E por que essa raiva toda de Cancão?
Frei Roque – A senhora acha pouco, Dona Guida? Esse miserável me deu uma cacetada e me trancou na mala! Só pra evitar que eu visse Geraldo depois que cheguei de Campina!
Geraldo – E o senhor não me viu?
Frei Roque – Eu? E esse peste deixou? Mas ele está acordando e vai ver quem é Frei Roque!
Cancão – (Fingindo desmaio de novo.) Ai!
Geraldo – Frei Roque, o senhor me desculpe, mas o senhor esteve comigo hoje.
Frei Roque – Eu?
Geraldo – Sim, e até fez meu casamento!
Frei Roque – Ai, e você casou Geraldo? Meus parabéns, meu filho! Que coisa!
Geraldo – O senhor tem certeza de que não me casou?
Frei Roque – Certeza absoluta.
Geraldo – Mas então, quem me casou?
Cancão – Eu! (Dá um grande salto e corre das garras de Frei Roque.) Frei Roque, peço-lhe uma trégua! Deixe eu falar e depois faça o que quiser!
Frei Roque – E eu tenho trégua para um safado que pega Frei Roque e dá uma cacetada na cabeça dele?
Cancão – O senhor vai me perdoar, mas foi o jeito.
Frei Roque – Foi o jeito o que? Que terra é essa em que os condenados pegam os filhos de São Francisco e metem o pau na cabeça deles?
Cancão – Eu precisava salvar Geraldo! Essa peste aí ia casar com ele no religioso e eu tive que impedir que a Igreja Católica se complicasse nessa bandalheira!
Lúcia – Não venha envolver a Igreja nas suas molecagens não, viu, moleque ordinário?
Frei Roque – (Investindo de bucho nela.) Cale a boca, viu, mocinha? Minhas brigas são minhas, de São Francisco e da Igreja, ninguém mais se mete nelas, está ouvindo?
Lúcia – O que?
Frei Roque – O que o quê? Eu ouvi a molecagem toda dali da mala, viu? A safadeza de Cancão, a cacetada, etc., é outra coisa, mas Geraldo livrou-se de boa, está ouvindo?
Dona Guida – Mas afinal de contas, que confusão é esta?
Geraldo – Foi cancão que deu uma cacetada na cabeça de Frei Roque e trancou-o na mala, mamãe.
Dona Guida – Boa, Cancão, bem feito! É pouco, pra ele não estar dando conselho errado sobre o casamento de meu filho!
Geraldo – Mas não foi Frei Roque não, mamãe, foi Cancão. Foi Cancão quem fez o casamento... que agora... Que agora não vale! Mamãe, o casamento não vale não, mamãe!
Lúcia – O casamento religioso! Mas o civil vale, viu? E se é assim, filhinho, vamos cuidar do desquite. Metade do que seu pai deixou agora é meu.
Geraldo – A perda do dinheiro não interessa, seria um belo prêmio para você, que só pensa nisso. Mas diante do que vi, faço questão de tirá-lo e lembro a você que nós casamos pelo regime de separação de bens.
Lúcia – Aí que você se engana, amor! Com a ajuda de Cancão, subornei o suplente Fragoso e ele colocou no livro “comunhão”, em vez de “separação”.
Dona Guida – Cancão safado!
Cancão – Um momento, aí vem o suplente rebocado. Com ele aqui, tudo se explica!
Volta Gaspar, vestido novamente como Fragoso, arrastado pelo pescoço pelo Juiz Nunes.
Nunes – Meu caro Geraldo, aqui está esse criminoso, ele confessou o casamento que fez. Foi me esperar na chegada e me contou tudo. Esse casamento foi realizado sem minha ordem, ele não tinha direito de receber as custas!
Lúcia – Mas o casamento feito por ele vale!
Nunes – Vale! Estou aqui somente para receber minha parte e dizer que não tomei parte na conspiração para casá-lo. Agora quero saber: quem paga minhas custas? Você?
Geraldo – Eu não!
Nunes – Então vou ficar sem minhas custas? Todo acordo comigo, menos esse, as custas do juiz são sagradas! E você, ladrão, me assassinar desse jeito pelas costas! Mas você me paga! (Agarra Gaspar.)
Gaspar – Doutor Nunes, eu sou um homem doente!
Nunes – Eu quero é que você morra, desgraçado! Tome, tome! (Caem as faixas.)
Geraldo – Gaspar!
Susana – (Desmaiando.) Ai!
Geraldo – Foi você quem me casou?
Gaspar – Foi.
Lúcia – (Desmaiando.) Ai!
Geraldo – E esse casamento assim vale, seu juiz?
Nunes – Não, não e não!
Roberto – (Desmaiando.) Ai!
Frei Roque – Pára! Pára!, pára tudo! Começa a explicar tudo de novo, que eu não estou entendendo mais nada! Que confusão é essa?
Dona Guida – Como foi que vocês descobriram o negócio do encontro?
Gaspar – Eu ouvi os dois combinando, quando estava aqui vestido de juiz. Contei a Cancão e a gente veio.
Geraldo – Cancão, meu velho! Que devo fazer pra você me perdoar?
Cancão – Me arranje aí sessenta paus. Isto. Dona Susana, aqui é dinheiro da passagem de vocês. O caminhão de Joca Mota sai já pra Campina, e sem dinheiro, quanto mais cedo chegarem ao Recife, melhor!
Susana – (Digna.) Onde passa o caminhão?
Cancão – Na ponte! Senhor Roberto, aqui estão seus vinte. Dona Lúcia, aqui estão os seus.
Lúcia – Eu recebo! Mas um dia você me paga! Nós ainda nos encontraremos!
Cancão – Espero que seja junto de alguma cobra!
Lúcia – Roberto!
Roberto – Que é?
Lúcia – Você não sai comigo?
Roberto – Ah, vá se danar! Eu lhe disse que só interessava com o dinheiro!
Cancão – Deixem a briguinha para o caminho. Adeus e boa viagem para todos! (Saem Lúcia, Roberto e Susana.) Agora nós, Frei Roque. Nisso tudo, meu medo era ir para o inferno! O senhor acha que dá pra isso?
Frei Roque – Sei lá, Cancão, sei lá! Tem umas coisas certas, umas doidices... Mas uma coisa eu lhe digo: de outra vez escolha outro para dar suas cacetadas, viu? E me deixe, que estou todo quebrado, preciso dormir.
Cancão – Pois vá Frei Roque, vá na paz de Deus. Acorde cedo, porque preciso me confessar o mais depressa possível.
Dona Guida – Por causa da confusão?
Cancão – Não, por causa da cobra.
Frei Roque sai, empurrando a cadeira de Dona Guida.
Geraldo – Aqui estão suas custas, Doutor!
Nunes – Geraldo! Que coração generoso! Você é único! (Sai rapidamente dando uma meia-volta.)
Geraldo – O dia terminou! Que dia! Quem levou a paulada foi Frei Roque, mas quem está sentindo tudo sou eu. E as contas, as ambições, a mesquinharia... Estou me sentindo como se minha casa tivesse se transformado numa barraca de cigano. Estou me sentindo capaz de vender e trocar tudo!
Gaspar – Até a mulher?
Geraldo – Que mulher?
Gaspar – Essa que você arranjou e despachou num dia só. Troca a mulher também?
Geraldo – Troco. Dou por sua mãe e você me volta duas irmãs solteiras! Vamos?
Cancão – Vamos. (Os três se encaminham para o proscênio.)
FIM